Muçulmanos reconhecem tom novo no discurso de Obama

O presidente americano, Barack Obama, foi elogiado por muitos líderes muçulmanos nesta quinta-feira por um discurso formulado para reparar a imagem maculada dos EUA junto ao mundo islâmico, mas algumas reações mais céticas mostraram que ele ainda tem uma montanha a escalar.

ALISTAIR LYON, REUTERS

04 de junho de 2009 | 14h18

Seu chamado por um "novo começo" com o mundo muçulmano, baseado no interesse e respeito mútuo, encontrou eco junto a muitos que ouviram o discurso que o líder americano proferiu na Universidade do Cairo.

Mas alguns disseram que não ouviram nada de novo relativo a políticas específicas, especialmente com relação ao conflito israelo-palestino, que, para muitos muçulmanos em todo o mundo, simboliza a injustiça.

"Pela primeira vez, os EUA estão adotando uma estratégia muito sábia, reconhecendo o outro, e isso ficou claro em cada palavra escolhida pelo presidente Obama," disse Randa Achmawi, editora diplomática do periódico egípcio Al-Ahram Hebdo.

O analista político saudita Khalid al-Dakhil disse que a mensagem de Obama foi de "reconciliação e novos começos," que será muito bem recebida no mundo árabe. "Se terá sucesso em lançar uma ponte sobre essa divisão, isso é algo que levará tempo."

Radicais islâmicos reagiram de modo hostil.

"O mundo islâmico não precisa de sermões morais ou políticos," disse Hassan Fadlallah, legislador do grupo xiita libanês Hezbollah, que tem o apoio do Irã.

"Ele precisa de uma mudança fundamental na política americana, começando com o fim do apoio total à agressão israelense contra a região, especialmente contra os libaneses e palestinos, uma retirada americana do Iraque e Afeganistão e o fim da ingerência dos EUA nos assuntos dos países islâmicos."

Em Teerã, Mohammad Marandi, diretor de Estudos Norte-Americanos na Universidade de Teerã, reconheceu que o tom adotado por Obama em relação ao Irã foi "significativamente mais positivo" que o do ex-presidente George W. Bush, mas disse que falar não basta.

"Ele pode fazer mais alguns discursos, mas as pessoas estão começando a perguntar: o que o senhor vai mudar?"

O chamado de Obama pelo fim da construção de assentamentos israelenses foi cautelosamente bem recebido pelos palestinos. Um porta-voz do presidente palestino Mahmoud Abbas o descreveu como "bom começo" em direção a uma nova política dos EUA no Oriente Médio.

Embora Obama também tenha dito aos palestinos que devem renunciar à violência e exortado o grupo militante islâmico Hamas a reconhecer Israel, alguns israelenses o acusaram de aplacar as nações árabes.

"Ele é uma grande ameaça à segurança de Israel, porque não compreende o significado de Israel para os judeus," disse Miriam Gal-el, colona judia em Ofra, na Cisjordânia ocupada.

Muitos palestinos se indagaram se Obama realmente conseguirá levar a paz ao conflito que já dura seis décadas.

"Foi tão longo e educativo quando um sermão religioso de sexta-feira," disse o estudante da Faixa de Gaza Ali Jad, de 23 anos. "Ele parece falar a sério sobre pôr fim ao conflito palestino-israelense, mas quando isso vai se concretizar?"

Issandr el-Amrani, um analista egípcio, disse que não ficou maravilhado com o discurso de Obama. "O argumento mais forte foi provavelmente que a situação dos palestinos é intolerável," comentou.

"Acho que o discurso cumprirá seu objetivo de gerar boa vontade," disse, acrescentando que muitos egípcios permanecem céticos, "com um pouquinho de otimismo," em relação à política dos EUA sob Obama.

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