Mugabe toma posse no Zimbábue após vitória nas urnas

Presidente era candidato único após opositor boicotar segundo turno das eleições

Da BBC Brasil, BBC

29 de junho de 2008 | 12h39

Robert Mugabe tomou posse na presidência do Zimbábue pela sexta vez neste domingo, 29, durante uma cerimônia realizada em sua residência oficial na capital, Harare. Resultados oficiais afirmam que Mugabe venceu em todas as 10 províncias do país com uma larga vantagem - mas também houve muitos votos invalidados. Mugabe concorreu sozinho no segundo turno da eleição presidencial após seu opositor, Morgan Tsvangirai ter decidido boicotar o pleito por causa da violência sofrida por seus partidários. Autoridades da comissão eleitoral disseram que o comparecimento às urnas foi de 42,37%, número parecido com o do primeiro turno, em março.   Veja Também: Bush condena farsa e prepara sanções contra ZimbábueRobert Mugabe, líder do Zimbábue há quase 30 anosMugabe é acusado de intimidar rivaisONG acusa governo do Zimbábue de violar processo eleitoralDe acordo com os resultados oficiais, Mugabe obteve 2.150.269 votos, contra 233.000 de Tsvangirai e 131.481 inválidos. Observadores independentes disseram que muitos dos que votaram foram às urnas por medo e que milhares de pessoas invalidaram seus votos ao danificar as cédulas eleitorais ou marcá-las de forma errada. Votos invalidados A cerimônia de posse confirma o novo mandato de cinco anos de Mugabe, que já está no comando do país há 28 anos. Tsvangirai foi convidado para a cerimônia em um "gesto de boa-vontade", mas disse que o convite era "inútil". "Como o partido pode dar sua bênção a algo que ele rejeitou?", perguntou um porta-voz da oposição. Tsvangirai, líder do Movimento pela Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês), anunciou que estava desistindo de sua candidatura no último domingo, atribuindo sua decisão à violência promovida pelo governo. Mesmo assim, seu nome continuava constando das cédulas eleitorais na votação de sexta-feira, porque as autoridades eleitorais do Zimbábue se recusaram a aceitar sua decisão.  Muitos países e organizações internacionais criticaram o governo do Zimbábue por seguir em frente com o segundo turno da eleição presidencial. Neste sábado, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que vai pressionar para que a ONU tome medidas severas contra o que ele chamou de governo "ilegítimo" do Zimbábue. Bush afirmou que quer uma proibição à exportação de armas para o país e a proibição de viagens para autoridades do governo do Zimbábue. Reação internacional O correspondente da BBC em Johannesburgo, Peter Biles, disse que assim que Mugabe assumir o novo mandato, ele deve voar para o Egito, onde participa de uma reunião da União Africana, que começa nesta segunda-feira. De acordo com analistas, a reação dos vizinhos do Zimbábue no sul da África será crucial. Um grupo de monitoramento do Parlamento Pan-Africano pediu ao chamado SADC (Comunidade de Desenvolvimento do sul da África) e à União Africana que facilitem conversas entre o governo e a oposição. Já o ex-arcebispo da Cidade do Cabo, Desmond Tutu, fez um apelo para que a comunidade internacional intervenha no Zimbábue e utilize a força, se necessário. Tutu afirmou que apoiaria o envio de uma tropa da Organização das Nações Unidas (ONU) para restaurar a paz no país. Em uma entrevista à BBC, Tutu também disse que os líderes da União Africana deveriam se recusar a reconhecer Robert Mugabe como o presidente legítimo do Zimbábue. "Se você tivesse uma voz unânime, dizendo claramente a Mugabe... você é ilegítimo e nós não vamos reconhecer sua administração de nenhuma forma - acho que seria um sinal muito, muito poderoso e fortaleceria bastante a comunidade internacional."  A chanceler alemã, Angela Merkel, qualificou de "farsa" o segundo turno das eleições presidenciais no Zimbábue e anunciou que defenderá um endurecimento das sanções da União Européia (UE) contra o regime de Robert Mugabe."Como presidente, Mugabe perdeu qualquer legitimidade", assegura a chanceler, em entrevista que será publicada na edição de amanhã do jornal "Die Welt". "É preciso colocar fim ao sofrimento da população, à qual o regime arbitrário de Mugabe fez tantas vítimas", acrescenta.Negociações Apesar de Mugabe ter dito que venceu com uma larga vantagem, observadores internacionais disseram que muitos votos foram invalidados e em algumas áreas o número deles era maior do que os votos para o presidente. As autoridades eleitorais chegaram a informar que a contagem dos votos estava encerrada, mas os resultados das regiões rurais do país continuaram chegando. O jornal estatal Sunday Mail traz em sua edição deste domingo a segunite afirmação: "Mugabe é um homem com uma tarefa e esta tarefa ainda tem de ser cumprida, por isso ele continua no cargo." Em entrevistas publicadas em jornais britânicos neste domingo, Tsvangirai disse que vai pressionar por negociações com Mugabe para uma nova constituição e novas eleições. "Nós temos o poder de controlar o parlamento e isto é reconhecido até pelo partido de Mugabe, o Zanu-PF... Nós temos de forçar um acordo de transição para um prazo e trabalhar por uma nova constituição para o Zimbábue", disse ele ao jornal Mail on Sunday. "Estou confiante que nós podemos conseguir isso se a pressão internacional continuar grande." Em outra entrevista ao jornal Sunday Telegraph, Tsvangirai disse que seria possível Mugabe permanecer como chefe de Estado cerimonioso. "Não acho que seja inconcebível inclui-lo em um acordo, dependendo, é claro, dos detalhes do que está sendo proposto e qual é o acordo." Mugabe ficou em segundo lugar no primeiro turno da eleição presidencial em março, perdendo para Tsvangirai. De lá para cá, o partido do líder da oposição, MDC, disse que 86 de seus partidários foram assassinados e 200 mil foram obrigados a deixar suas casas pelas milícias leais ao partido governista Zanu-PF. O governo culpa o MDC pela violência.  BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC. Texto atualizado às 13h20

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