'MUITA GENTE ME CHAMAVA DE LOUCA'

A dona de casa Conceição Aparecida da Silva, de 47 anos, conheceu a filha Fernanda, hoje com 21 anos, quando ela tinha 7. Conceição trabalhava como voluntária em um abrigo e era acompanhante da menina quando ela ficava internada. Vítima de paralisia cerebral ao nascer e portadora do vírus HIV, a criança não fala e não anda.

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h07

Fernanda morava no abrigo porque sua mãe trabalhava o dia todo e não tinha como cuidar exclusivamente dela. O pai, um libanês, a registrou como filha, mas nunca a quis. Foi embora quando ela tinha 2 anos.

Durante quase três anos, Conceição criou laços com Fernanda porque dormia todas as noites com ela no hospital durante as internações. Algumas vezes a levava para passar o fim de semana em sua casa para brincar com seu filho, Diogo. "Ela não fala, não anda, mas a gente se comunica com gestos, com o olhar. Me apaixonei por ela", conta.

O abrigo em que Fernanda vivia fechou e ela foi transferida para Guaratinguetá (SP). Por causa da distância, Conceição não pôde continuar vendo a menina, mas ligava com frequência.

Seis meses depois, Conceição recebeu uma ligação desesperada do abrigo: a mãe de Fernanda havia morrido e a menina, deprimida, não queria mais tomar a medicação anti-HIV.

"Peguei um ônibus e fui para lá. Ela estava super debilitada. Ao me ver, ela abriu um sorriso que não dá nem para explicar. Peguei ela no colo, a abracei e falei: 'Vou voltar para te buscar'."

A assistente social do abrigo fez uma carta para o juiz e Conceição pediu uma semana para conversar com o filho, que na época tinha 11 anos, e pedir demissão no trabalho para dedicar-se exclusivamente à menina.

"Fui ao fórum, levei toda a papelada e o juiz me deu a guarda provisória por um ano. Ele queria ver se eu daria conta de cuidar de uma criança especial."

Na semana seguinte, Conceição foi buscar a menina. Voltou com ela no colo, com a sensação de dever cumprido. "Não poderia deixar essa menina morrer doente e sozinha num abrigo."

Conceição diz que, num primeiro momento, enfrentou resistência das pessoas. "Muita gente me censurou. Me chamavam de louca, diziam que eu ia acabar com minha vida adotando uma criança doente."

Os anos passaram, as pessoas se acostumaram e Conceição não se imagina longe dela. A única dificuldade, diz, é que Fernanda hoje é uma moça teimosa que não quer mais tomar remédios. "Fora isso, minha filha é linda."

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