Mujica: do porão da ditadura à disputa presidencial

"Presidente? Tão difícil como um leitão assobiando." Desta forma, com uma piada típica do interior do Uruguai, o senador José "Pepe" Mujica respondia quando um simpatizante ou um jornalista lhe perguntava, há poucos anos, se um dia disputaria as eleições presidenciais. Há apenas meia década parecia impossível que esse ex-guerrilheiro tupamaro, que em 1969 havia participado da ocupação armada da cidade de Pando, poderia aspirar à presidência. Hoje, a ponto de ser eleito presidente Mujica encara o novo trabalho com irreverência: "Será como um biscate."

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Nascido em 1935 numa família austera de classe média, Mujica aderiu na juventude ao conservador Partido Nacional (Blanco). Mas, nos anos 60, passou para a esquerda e fundou o Movimento de Liberação Nacional-Tupamaros. Ali conheceu Lucia Topolanski, militante que se transformou em senadora e sua mulher.

Em 1972, Mujica foi detido e ferido com seis tiros e várias das balas ainda estão em seu corpo. Passou 14 anos na prisão. Foi torturado pelos militares no final do governo civil e ao longo da ditadura (1973-85).

Seu colega de guerrilha Eleuterio Fernández Huidobro indicou recentemente em um comício que Mujica, em diversas ocasiões, quando os guardas passavam dias sem dar-lhe água, precisou recorrer ao próprios fluidos corporais. "Talvez tenhamos pela primeira vez um presidente que teve de beber sua urina", disse. Em 1985, com a volta da democracia, Mujica recuperou a liberdade, deixou de pregar a luta armada e transformou o grupo de ex-guerrilheiros em um coeso partido político que integra a coalizão Frente Ampla. Foi eleito senador e depois assumiu a pasta da Agricultura de Tabaré Vázquez, onde começou a planejar a conquista da presidência. Para não assustar a classe média avisou: "Não quero mais esmagá-la. Quero é ordenhar a burguesia."

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