Mujica vence e é o novo presidente do Uruguai

Com uma posição mais pragmática e moderada, ex-guerrilheiro conquistou a confiança do eleitorado

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

O ex-guerrilheiro José "Pepe" Mujica foi eleito ontem presidente do Uruguai. Sua coalizão de esquerda, a Frente Ampla, derrotou o conservador Partido Nacional (Blanco), do ex-presidente Luis Alberto Lacalle, no segundo turno das eleições uruguaias.

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Apurados 80% dos votos, Mujica tinha 52,8% dos votos, enquanto Lacalle obteve 43%. Apesar de a apuração não ter sido finalizada, a vantagem confirmou as pesquisas de boca de urna, que deram a ele uma vantagem de até 5 pontos porcentuais sobre o adversário.

Segundo o instituto Factum, a vantagem de Mujica era de 51% a 45%. De acordo com a Equipos Mori, o ex-guerrilheiro venceu por 50% a 46%. O instituto Cifra também deu a vitória a Mujica: 51,5% a 44,4%.

Após a divulgação das pesquisas, Lacalle reconheceu a derrota e felicitou o rival. Em seguida, em meio a uma intensa comemoração de seus partidários nas ruas de Montevidéu, Mujica subiu em uma tribuna erguida à beira do Rio da Prata e agradeceu a seus militantes.

COMEMORAÇÃO

Sob uma intensa chuva, ele disse que no Uruguai não há vencidos nem vencedores. "Apenas elegemos um governo", afirmou. "Amanhã, a pátria e o compromisso continuam."

O atual presidente, Tabaré Vázquez, correligionário de Mujica, subiu ao palanque para abraçá-lo. "Acabei de falar com Lacalle por telefone e lhe mandei um abraço. Já estive na situação em que ele se encontra (derrotado nas urnas) e entendo o momento que ele está vivendo", disse Tabaré.

Em retribuição, Mujica voltou a dizer o que todos já sabiam, que seu governo será uma "continuidade" da atual administração. "Ganhamos graças a gestão deste governo. Obrigado, Tabaré."

LUTA ARMADA

Mujica, que há 40 anos defendia a luta armada para a conquista do poder e a implantação de um regime marxista, transformou-se, nos últimos anos, no que ele mesmo define como um "vegetariano ideológico".

Embora mantendo o verniz da utopia socialista, ele assumiu uma posição mais pragmática: diz que pretende atrair capitais estrangeiros, manter o sigilo bancário e fazer acordos comerciais com EUA e China.

Segundo especialistas, o principal cabo eleitoral de Mujica, no entanto, foi mesmo a boa imagem do atual governo. Por isso, não haverá surpresas se o novo presidente mantiver a base da equipe econômica do governo atual.

Recentemente, Mujica declarou, com ironia, que não será Mandrake nem Papai Noel. "A vontade de repartir possui os limites impostos pela realidade de uma sociedade de mercado", afirmou.

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