Mulher bate mais em briga de casal, indica pesquisa

Pesquisa inédita revela que o consumo de álcool está relacionado a 9,2% das agressões femininas

Laura Diniz, de O Estado de S. Paulo,

29 Setembro 2008 | 08h31

As mulheres reagem mais em brigas de casal. A diferença é que as agressões delas contra os companheiros, mais constantes, são leves, como empurrões e tapas, e as deles, mais graves e violentas. A revelação consta do 1º Levantamento Nacional sobre Padrões de Consumo de Álcool no Brasil, feito pelo médico Marcos Zaleski, a partir de entrevistas com 1.445 pessoas em todo o Brasil.   Veja também:  ''Ele me mandou calar a boca. Dei um soco''   ''A primeira coisa a fazer é melhorar o diálogo''   123 mulheres em cárcere privado. Só no ano passado  O estudo, feito com apoio da Unidade de Estudos de Álcool e Outras Drogas (Uniad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), revelou que 5,7% das entrevistadas admitiram ter batido pelo menos uma vez em seu parceiro nos 12 meses anteriores à entrevista. No caso dos homens, o índice foi de 3,9%. "Foi uma surpresa. Todos imaginavam que o número de homens agressores seria maior que o de mulheres", diz Zaleski.No total das agressões - que inclui episódios em que a pessoa bateu, apanhou ou houve violência mútua -, a mulher também aparece como mais impetuosa. Elas se envolveram em 14,6% dos casos de Violência entre Parceiros Íntimos (VPI) e eles, em 10,7%.A questão da bebida é controversa. Mulheres assumiram estar embriagadas em 9,2% das brigas com violência - homens disseram que suas parceiras haviam bebido em 30,8% dos casos. Eles admitiram ter bebido em 38,1% dos episódios de VPI, mas elas rebateram que o parceiro estava embriagado em 44,6% dos casos. Vale destacar que apenas um dos parceiros foi entrevistado por domicílio, ou seja, os números não retratam os dois lados da mesma moeda.O médico explicou que "a mulher se descontrola mais facilmente por inúmeras razões, inclusive a provocação do marido, enquanto os homens se descontrolam mais sob o efeito do álcool". Segundo Zaleski, os números podem expressar certa subnotificação dos homens em relação à agressão e ao uso do álcool, mas isso é comum nos trabalhos científicos. "É o que chamamos de limitação de estudo. Não há instrumentos para medir se a pessoa está falando a verdade." Para tentar minimizar esse efeito, todas as entrevistas foram consentidas, tiveram o sigilo de informação preservado e as pessoas estavam sozinhas, em um lugar neutro. "O resultado da pesquisa reflete um padrão internacional. No entanto, para confirmar exatamente os números, teremos de fazer outros estudos a cada cinco anos."A psicóloga Ilana Pinsky, orientadora do trabalho do médico, explica alguns números estranhos ao senso comum. "Culturalmente, não é tão pesado para as mulheres assumirem que batem, até porque elas vêem as agressões como leves. No caso dos homens, é mais complicado, porque o ato é tido como mais violento, que machuca. Mas outros estudos, até internacionais, mostram números em proporções semelhantes, inclusive com casais."Segundo Ilana, outras ressalvas são importantes: muitos homens podem ter dito que suas parceiras estavam bêbadas quando os agrediram para justificar o fato de terem apanhado. Da mesma forma, elas podem ter ficado constrangidas em admitir o uso do álcool, muito mais associado aos homens.A diretora do escritório regional do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) no Brasil, Ana Falú, recebeu com receio o resultado da pesquisa. Ela disse que deve ser considerada a informação de que a mulher pratica violência leve e o homem, mais grave."Nunca vi homem paraplégico por violência praticada pela mulher, mas o contrário é comum."Segundo Ana, para que os números não distorçam a realidade, "o principal é saber onde se iniciou o ciclo da violência e em que momento essas mulheres resolvem reagir com um tapa". Ela explicou que todos os estudos nacionais e internacionais sobre o assunto apontam que o ciclo da violência familiar se inicia com agressão, mesmo que psicológica, de alguém de dentro da relação - "normalmente dos homens, pois eles se sentem no direito de ter controle sobre o corpo e a vida das mulheres." var keywords = "";

Mais conteúdo sobre:
violênciabrigacasal

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.