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Múmias com aterosclerose

Em 1800 uma pessoa vivia 40 anos, hoje vivemos 80. Duzentos anos atrás as pessoas morriam em virtude de doenças infecciosas, hoje a principal causa de morte são doenças cardiovasculares. E por trás da maior parte dos problemas cardiovasculares está a aterosclerose.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h23

Esta doença é caracterizada pela formação de placas no interior das artérias. As placas reduzem a elasticidade das artérias e, aos poucos, vão diminuindo seu diâmetro interno, dificultando a circulação do sangue. Este "entupimento" é uma das principais causas dos problemas cardiovasculares que matam o homem moderno.

A lista dos fatores que facilitam o aparecimento da aterosclerose é uma descrição da vida do homem moderno: falta de exercício, obesidade, dieta rica em gorduras, pressão alta, stress, diabetes, tabagismo e consumo de álcool. Não é para menos que durante anos acreditou-se que a aterosclerose era uma doença da sociedade moderna.

Mas, desde 1909, os arqueólogos discordam desta interpretação. A análise de múmias de faraós egípcios, chineses ricos e esquimós canadenses, já mostrava indícios de aterosclerose. Mas eram casos esparsos e sempre ficava a dúvida se a amostra era significativa. E o mito da aterosclerose como uma doença moderna sobreviveu.

Agora, o estudo de 137 múmias pôs um ponto final na questão. Foram analisadas múmias de 4 civilizações: 76 múmias egípcias que viveram entre 3100 a.C. e 364 d.C., coletadas em 13 lugares distintos; 51 múmias peruanas que viveram entre os anos 200 e 1500; 5 múmias de índios que viveram entre 1500 a.C e 1500 d.C na América do Norte e 5 múmias dos unangan, que viveram nas Ilhas Aleutas, próximas ao Alasca, entre 1756 e 1930 .

Cada múmia foi examinada em um tomógrafo computadorizado semelhante ao que existe nos grandes hospitais. Como as placas (chamadas de ateromas) que se formam durante a aterosclerose possuem depósitos de cálcio é possível identificar estas placas mesmo em múmias mal preservadas.

Sete especialistas foram recrutados para examinar as radiografias e fazer o diagnóstico. Além de analisar a presença de indícios de aterosclerose foi possível, estudando a estrutura dos ossos, determinar o sexo e a idade aproximada do indivíduo.

Os resultados mostram que 38% das múmias egípcias, 25% da peruanas 40% das americanas e 60% das originárias das Ilhas Aleutas sofriam de aterosclerose ao morrer. As artérias afetadas eram as mesmas que são afetadas hoje, aorta, ilíaca, femoral, carótidas e outras.

Sabendo a idade aproximada dessas pessoas ao morrer (na média, elas morreram com 43 anos) foi possível demonstrar que as múmias de pessoas mais velhas tinham maior probabilidade de apresentar ateromas. Também foi constatado que a gravidade da doença aumentava com a idade.

O passo seguinte foi correlacionar os achados médicos com os hábitos de vida dessas civilizações, como obtinham seu alimento, sua fonte de proteína, o clima da região, seu tipo de habitação e como preparavam a comida. Esta análise mostrou que as populações estudadas viviam em climas distintos comiam tanto peixe quanto carne de mamíferos. Em outras palavras, tinham modo de vida muito diferente e mesmo assim todas sofriam de aterosclerose.

A conclusão deste estudo é que a aterosclerose vem afetando seres humanos desde muito antes da época moderna e provavelmente esteve presente em todas as populações primitivas. Mas, então, por que estas pessoas não morriam de doenças cardiovasculares? Uma possível explicação é que as pessoas morriam muito cedo, em razão de outras causas, como doenças infecciosas, muito antes da aterosclerose provocar o aparecimento de doenças cardiovasculares graves. Se isso é verdade, então a aterosclerose não é uma doença que surgiu com a sociedade moderna, mas vem acompanhando o homem há milhares de anos. Ela só começou a matar recentemente, quando a medicina conseguiu evitar as doenças que matavam nossos ancestrais.

O fato de as múmias já sofrerem de aterosclerose não justifica que, ao terminar de ler este artigo, você passe a comer toneladas de carne, abandone os exercícios e deixe de controlar o peso. Estas medidas preventivas continuam a ser a melhor maneira de retardar o aparecimento da aterosclerose.

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO.

MAIS INFORMAÇÕES: 'ATHEROSCLEROSIS ACROSS 4000 YEARS OF HUMAN HISTORY: THE HORUS STUDY OF FOUR ANCIENT POPULATIONS'. LANCET DOI:10.1016/S0140-6736(13)60598-X 2013
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