Na África, deslocamentos longos e perigosos aumentam fatalidades

Em países como Gana e África do Sul, é comum que diversas mortes ocorram durante viagens para cerimônias fúnebres.

BBC Brasil, BBC

07 Junho 2011 | 05h30

As rodovias da África estão entre as mais perigosas do mundo. O continente ainda tem poucos carros, mas os acidentes de trânsito já causam mais mortes do que a malária e a tuberculose, e o problema tende a piorar.

Pessoas que viajam em comboio a funerais estão especialmente sob risco grande de acidentes fatais.

À medida que muitas nações africanas se desenvolvem economicamente, os cidadãos deixam o campo em busca de trabalho nas cidades em crescimento. Mas muitos mantêm fortes laços com suas famílias e comunidades rurais.

Esses laços forçam longos deslocamentos, em viagens muitas vezes perigosas, aumentando os riscos de acidentes fatais.

Rebekah Lee, acadêmica da universidade britânica Goldsmiths, estudou a relação que os sul-africanos têm mantido com seus carros. "Se as pessoas estivessem ficando nos lugares onde nasceram, esse fenômeno (de acidentes de trânsito) não estaria acontecendo", disse Lee à BBC.

Famílias destruídas em Gana

Em Gana, os funerais são uma parte importante da cultura local. As famílias costumam gastar grandes quantias de dinheiro para promover cerimônias e festas aos falecidos.

Mas os funerais ganenses podem acabar se tornando um ciclo vicioso de mortes, à medida que as pessoas que comparecem às cerimônias, muitas vezes acabam se tornando vítimas de acidentes.

Em geral, os viajantes se deslocam aos funerais em ônibus superlotados, que às vezes transportam inclusive o caixão.

A imprensa local relatou inúmeros casos de famílias e comunidades devastadas por acidentes com grupos que viajavam a funerais.

O antropólogo Gabriel Klaeger, que pesquisou as principais causas das mortes nas estradas de Gana, diz que a alta velocidade é um denominador comum entre os acidentes.

Geralmente, motoristas profissionais são pressionados a "correr" para chegar mais rápido ao destino final e lucrar mais com a viagem.

O mesmo ocorre nos deslocamentos a funerais. Os condutores frequentemente recebem incentivos para fazer o percurso no menor tempo possível, apesar dos riscos.

Os desastres às vezes ocorrem quando o comboio já chegou ao local do funeral, conta Klaeger, citando pessoas caminhando em estradas perigosas, às vezes sob o efeito do álcool tomado durante as cerimônias fúnebres.

Depois do fim do apartheid, muitos sul-africanos negros deram início a negócios especializados em viagens para funerais, que oferecem o transporte à cidade natal do falecido.

Em 2009, o governo da África do Sul elaborou uma legislação reguladora para eventos fúnebres, e órgãos especializados começaram a promover treinamento e a estabelecer padrões para as cerimônias.

Bruce Reily é um dos fundadores da recém-criada Academia Funerária Africana. Seus primeiros 300 estudantes devem se formar neste ano, mas, apesar dos esforços para melhorar as condições de segurança nas cerimônias fúnebres, os elos culturais que unem os africanos a suas aldeias natais provavelmente não desaparecerá.

"Muitas comunidades creem que o corpo do morto deve voltar ao local onde ele nasceu, ou ele não terá descanso", disse Reily à BBC. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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