Na calada da noite, em Washington e em Bordeaux

Diretor de 'Mondovino' lança novo livro e denuncia 'teorias conspiratórias' a favor do gosto globalizado

Luiz Horta, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2008 | 04h10

O título era promissor, pois se as relações entre o poder e o gosto são evidentes em coisas como a moda e a arte, por que não investigá-las também no âmbito dos vinhos? Por exemplo, todo o poder, real ou suposto, de Robert Parker sobre o estilo dos vinhos atuais: é um ponto polêmico e ainda não houve uma pesquisa séria sobre seu impacto real nesse assunto. Mas ao terminar de ler Le Goût et Le Pouvoir, um livro fraco e meramente panfletário de Jonathan Nossiter, a lacuna continua existindo. Não foi desta vez que o poder de Parker foi aferido. O livro não passa de uma versão ainda mais confusa de Mondovino. Mas perde do filme o tom de comédia de costumes, aquela graça de "monsieur Hulot visitando a vinholândia", ganhando ainda em amargura. Como todo libelo, baseia-se no que os filósofos chamavam doxa, ou seja, na opinião pessoal do autor disfarçada como verdade. Um primeiro problema é a falta de lógica. O texto é uma mistura de diário de filmagem (quando melhora e conta algumas anedotas sobre Mondovino), chiliques variados em ambientes parisienses (restaurantes de Ducasse e Senderens, Lavinia, etc.) e puro e simples delírio. Os equívocos e meias-verdades são tantos que enumerá-los seria escrever outro volume de igual tamanho. Peguemos somente uns poucos. Pela repetição dos nomes de Bush, Blair e Berlusconi, com a entrada em cena de Sarkozy, aqui e ali, junto ao de Parker e Michel Rolland, ele tenta colar esses personagens num grupo que tramaria uma uniformização do gosto dos vinhos em nível mundial. Não dá para imaginar uma reunião desses senhores (onde? Davos? Camp David?) para discutir que gosto o vinho passaria a ter no século 21. E mesmo que acontecesse, confesso que o propósito disso me escapa - que interesse teriam em tornar todos os vinhos iguais? Que ganho de poder isso representaria? Dois capítulos gordos do livro focam a Espanha, onde, sempre segundo ele, tal uniformização seria mais evidente, com a destruição de tradições como a personificada na centenária vinícola López de Heredia (que Nossiter chama Lopez y Heredia...). Realmente, os Tondonias e Bosconias são vinhos únicos e cada vez mais isolados na paisagem, além de deliciosos. A questão é que não estão ameaçados. Passaram por momentos difíceis sim, mas hoje tudo que produzem é vendido, exatamente por serem diferentes. Quanto à diversidade, basta citar que nos últimos 20 anos, justamente o reinado de Parker, e sem prestar atenção nele, a quantidade de uvas autóctones recuperadas na Espanha é surpreendente. Só para listar algumas: a Hondarrabi Zuri no País Basco; Maturana blanca e Maturana tinta na Rioja; Bruñal, Rufete, Mencía, Prieto Picudo em Castilla y León; Picapoll, Garnacha Peluda, Sumoll na Catalunha; a Bobal em Valência; a Godello na Galícia; Listán blanco, Listán negro e Negramoll nas Ilhas Canárias; e a Callet e a Mantonegro nas Ilhas Baleares. O vinho único com um só sabor e estilo, feito de Cabernet ou Chardonnay, é uma distopia felizmente irreal, não há minimante tal perigo. E o maior erro do livro, listar como inimigo e flying winemaker justamente Telmo Rodríguez, que passa a vida procurando velhos vinhedos para recuperá-los. Foi assim que surgiu o Molino Real de Málaga, que Hugh Johnson, de longe um dos ferozes detratores de Parker, descreve emocionado na última página de suas memórias: Telmo entrevistando as pessoas mais velhas, recuperando a forma tradicional de prensar as uvas Moscatel de vinhedos muito antigos e reproduzindo um sabor primevo que encanta o grande escritor inglês. Nada menos globalizado, e é este um dos "inimigos" para o cineasta de Mondovino. Mas o que isso tudo significa? Que talvez seja hora de levar Jonathan Nossiter e suas conspirações menos a sério.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.