Na cola do Glee

Jovens atores emprestam suas histórias para compor seriado que fala da batalha pela profissão

Patrícia Villalba / RIO,

03 de novembro de 2010 | 07h00

 

 

 

É uma história que começou ao contrário. Em 2008, o autor e diretor João Falcão mandou publicar anúncio de um teste de elenco no Teatro Glória, onde selecionaria jovens atores, entre 18 e 28 anos, para uma nova peça. E o que seria mais uma etapa no processo de produção de um espetáculo se tornou a própria matéria-prima de criação. Surpreso com as 3 mil inscrições e também com o que viu e ouviu nos testes, Falcão começou a pensar em tudo o que tem a ver com o começo da carreira artística e o que ainda leva tantos jovens a reunir coragem para tentar abraçá-la. A audição, portanto, serviu para selecionar elenco e para dar estrutura aos personagens, que passaram a ser, justamente, jovens que buscam a carreira de ator.

 

 

som Ouça: 'Quem quer comprar meu samba?, de João Falcão e Ricco Viana, cantada por todo o elenco da série Clandestinos

 

 

Foram três meses de conversas com os selecionados até que nascesse Clandestinos, projeto que Falcão montou no teatro, onde permanece em cartaz até hoje (no Teatro Leblon, no Rio, às terças e quartas), e que chega à TV como um seriado de sete episódios, dirigido por Flávia Lacerda.

 

No primeiro, que vai ao ar na quinta-feira, na Globo, Elisa e Fábio (Elisa Pinheiro e Fábio Enriquez, na foto acima), ela produtora e ele autor e diretor, abrem vagas no elenco de uma peça que vai contar a vida de atores que estão na batalha do início da profissão. É uma obra dentro de outra obra, e além dos mesmos nomes, os personagens têm histórias parecidas com a vida real dos atores.

 

Por isso o diretor, alter-ego de Falcão, conversa um pouco com os candidatos quando eles sobem no palco, para usar suas histórias pessoais para escrever a peça. "Eles não vinham com uma história preparada, achavam que era um teste como outro qualquer. Por isso, o que eles contaram me impressionou tanto", diz Falcão, explicando que o teste que vai aparecer na série é praticamente igual ao de 2008, que deu origem a tudo isso.

 

Depois do rápido bate-papo do tipo "quem sou e para onde vou", os candidatos têm 90 segundos para mostrar seu talento. "Eu ficaria mudo, não ia conseguir. É admirável que eles tenham conseguido", anota o autor.

 

Embalos. Falcão também assina a trilha sonora do seriado, ponto forte do programa. Logo de cara, toca um Sujeito de Sorte, de Belchior, revisitado pela banda Vermelho 27, com arranjo de Robertinho do Recife. Outra regravação é Se Eu Quiser Falar com Deus, de Gilberto Gil, linda demais na voz de Laila Garin. Há ainda mais nove canções, compostas especialmente para a série por Ricco Viana – a mais forte delas é Quem Quer Comprar Meu Samba, parceria de Ricco e João, cantada pelos atores do elenco.

 

Sujeitos de sorte. Aos poucos, vai ficando claro quais candidatos serão aprovados e, mais do que isso, quais parecem ter uma estrela grudada na testa. No final, forma-se um grupo de tipos variados e talentosos, como os personagens de Glee – embora Clandestinos seja anterior ao seriado americano.

 

São ótimas as cenas que apresentam as irmãs gêmeas Gisele e Michele (Giselle e Michelle Batista, na foto da capa deste caderno), que encenam uma história linda sobre como ser duas em uma. É destaque também a personagem Chandelly (Chandelly Braz), nordestina que vem para o Rio e acha que precisa mudar o sotaque para se dar bem como atriz.

 

Mas a personagem mais cativante é uma mineira chamada Adelaide, que deixa Três Corações para ser artista. É encantadora a história de como ela foi embora levando o saxofone da bandinha local. "É impossível evitar a emoção. Gente é uma coisa muito emocionante", observa Falcão, logo o primeiro episódio ser apresentado à imprensa, na semana passada.

 

Adelaide, a atriz, é bem parecida com a Adelaide da ficção (leia texto sobre a atriz acima). E como todos do elenco têm uma história que merece ser contada, o seriado foi desdobrado num quadro do Fantástico. Apresentado pelo ator Bruno Garcia, ele vai mostrar a vida real dos atores durante oito domingos, a partir de hoje. "A profissão de ator ainda é mal compreendida no País. Acho que a série vai mostrar muita coisa", diz Fábio Enriquez, que confessa que pensou em desistir várias vezes. "Pensei em desistir durante muitos anos. Mas faz tempo que isso não passa pela minha cabeça. Passar num teste como esse faz você pensar que está no caminho certo."

 

Flashes. É capaz que os jornalistas nunca tenham visto elenco mais adorável e empolgado do que o de Clandestinos, que concedeu entrevista coletiva depois da exibição. E os atores, de sua parte, nunca tinham respondido a tantas perguntas ao mesmo tempo que flashes disparavam para todos os lados.

Trabalhar na Globo e num projeto de João Falcão combina bem com o subtítulo do programa – "o sonho começou". Todos ali parecem saber disso, mas há um "algo mais", além da fama, que só pode ter a ver com a preparação oferecida por João Falcão nestes dois anos e meio que estão juntos. "Ter a minha história, mesmo que diluída, no universo do João, é de certa forma vê-la eternizada", filosofa Fábio. "Quem sabe outros atores montem essa peça quando a gente for velhinho, já pensou?"

 

 

 

 

A hora da estrela

Se quando você vir a personagem Adelaide em cena do seriado Clandestinos achar que a atriz interpreta com toda a verdade possível, isso não será apenas resultado do talento dela e do trabalho de preparação do diretor e autor João Falcão. É que a Adelaide da ficção é praticamente a Adelaide de Castro da vida real, garota corajosa que saiu de Três Corações, "a cidade do Pelé", em Minas Gerais, para buscar a carreira de atriz no Rio, com apenas 18 anos. "Achei que com 18 anos já tinha chegado a hora de eu tentar alguma coisa", explica ela ao Estado, quando começa a contar uma vida que parece ter saído de uma novela.

 

No seriado, a história de Adelaide começa desse jeito, com ela deixando Três Corações, com o mínimo de dinheiro necessário para a viagem, para se deparar com uma tremenda aglomeração na porta do teatro onde seria realizado o teste de elenco – antes, ela tem um encontro tragicômico com Fábio Assunção, que participa do seriado como ele mesmo.

 

Cercada de gente, a produtora Elisa (Elisa Pinheiro) decide dividir os candidatos em duas turmas, uma por dia. Adelaide fica, então, para o dia seguinte, mas não tem onde dormir. Acaba se abrigando num ônibus, e fica de lá pra cá na cidade a noite inteira. "Isso aconteceu mesmo, mas comigo", revela João Falcão, que antes de se consagrar nos teatros de Recife, ainda pós-adolescente, tentou a sorte no Rio. "Me dei muito mal e acabei voltando para Recife. Foi bom, porque tive a oportunidade de trabalhar com pessoas de lá e, depois, pude voltar com mais experiência. Daí, deu certo."

 

Mas tanto a Adelaide da vida real quanto a da ficção não se dão por vencidas. Do ônibus, a personagem liga para a mãe e a tranquiliza: "Encontrei um alojamento ótimo, mãe, tem uma vista linda e segurança 24 horas", diz ela, mentindo só um pouquinho. No dia seguinte, no teste, com maquiagem borrada de choro e chuva, a história dela comove o diretor que, num momento especial do roteiro, confunde atriz e personagem, acreditando que tudo aquilo no palco é encenação.

 

A Adelaide da vida real também passou por maus momentos na cidade. "Na primeira semana, fui assaltada", conta ela, que está em cartaz há dois anos na peça Clandestinos, com a qual viajou por todo o País. Além disso, fez uma participação no filme Chico Xavier. O susto não foi grande o suficiente para fazê-la temer o Rio ou cogitar abandonar o sonho de ser atriz. "Você chega aqui no Rio e recebe de cara um monte de referências, mesmo sem dinheiro. Nunca tive isso."

 

Em Três Corações, ela deixou a mãe, Valéria, o pai, Marcos, e nove irmãos. Ele queria que ela fosse policial militar, mas desde pequena ela queria ser artista, ideia que ganhou incentivo quando ela começou a frequentar as aulas de teatro e música do projeto Pedalarte, mantido pela prefeitura e pela iniciativa privada local. "Acho que o artista tem essa coisa mais livre, vê a vida de uma maneira diferente", diz ela, hoje com 20 anos e prestes a estrear em rede nacional.

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