Na pequena cozinha de Julie, a grandiosa obra de Julia Child

Baseada na obra da legendária chef, blogueira texana recria 524 receitas em um único ano

Cíntia Cristina da Silva, de O Estado de S. Paulo,

30 Janeiro 2008 | 18h42

A texana Julie Powell ainda não tinha nascido quando a californiana Julia Child (1912-2004) publicou aquele que se tornaria um clássico da gastronomia americana: Mastering the Art of French Cook. Editado pela primeira vez em 1961, foi responsável por apresentar à América dos cheeseburguers e batata frita o clafoutis de cereja e os oeufs a la Bourguignonne dos franceses.   Julia Child estudou no Le Cordon Bleu, em Paris, e considerava a França "sua pátria espiritual". Parte dessa vivencia transformadora está registrada em My Life in France (escrito em parceria com Alex Prud´ Homme, editora Knopf, 2006), publicado postumamente. Além dos livros que escreveu, Julia teve seu próprio programa de TV, o The French Chef (veja como assar um frango à la Julia Child em www.youtube.com/watch?v=2ohiUbQyDhk). Sem afetações, ela se tornou uma espécie de embaixatriz da culinária francesa nos Estados Unidos. Assim não é difícil entender o fascínio que Julia Child exerceu sobre gerações de mulheres que, à exemplo da chef, também queriam comer bem.   Julie Powell foi uma delas. Enfastiada com o que andava comendo, ela decidiu recriar as 524 receitas do catatau Mastering the Art of French Cook em um único ano. A empreitada virou blog que virou livro e agora vai virar filme, dirigido por Nora Ephron (roteirista da comédia Harry & Sally - Feitos um para o Outro, 1989). Deve ter Meryl Streep no papel de Julia Child e Amy Adams no papel de Julie Powell.   Julie & Julia concentra-se na preparação dos pratos, mas não é um livro de receitas. Longe disso, descreve os erros e acertos da narradora na cozinha e até dá margem para uma, ou outra, crise existencial.   A experiência "enlouquecedora em certos momentos", fez a garota, que quando criança adorava junk food, tomar gosto por pratos como Coq au Vin. "Não foi a técnica que quase me matou, foram os inúmeros detalhes, as minúcias na preparação de alguns pratos e a certeza que, se não terminasse isso, nunca mais iria terminar nada". Esse projeto ganhou um propósito gigantesco e acabou por mudar minha vida para melhor", disse Julie Powell.   Atualmente, a cozinheira-blogueira-escritora trabalha no livro The Dying Art onde narra seus esforços para aprender os mais diversos cortes de carnes com mestres açougueiros. Sobre a aventura com Julia Child e o MtAoFC, Julie Powell falou a Paladar por e-mail.   Parece que Mastering the Art of French Cooking teve em você o efeito de uma epifania. É verdade?   Com certeza. Fui inspirada desde o princípio, pelas receitas de Julia Child, a me interessar e aprender mais sobre a culinária francesa. Já o projeto todo, minha imersão na prosa de Julia, foi uma epifania que durou todo um ano. Nesse período, conheci muito a respeito dela e também aprendi a viver minha vida com coragem e alegria.   Você disse que ler MtAoFC foi como ler versos bíblicos pornográficos. Em que sentido?   Meu primeiro contato com o livro teve, de início, uma evocação quase obscena da sensualidalidade do ato de comer e cozinhar. Senti uma quase reverência a esses prazeres na escrita de Julia Child. Era como se tivesse encontrado, ao mesmo tempo, uma fonte de espiritualidade e uma zona de escape a todos os desejos frustrados.   Qual era seu conhecimento sobre culinária francesa antes de MtAoFC?   Antes do livro era uma cozinheira entusiasmada (isso não quer dizer que era talentosa!), comi bastante em restaurantes franceses, mas não tinha um conhecimento real da cuisine; de sua filosofia, das nuances e de como as receitas formam um corpo de sabores harmoniosos. Não sabia nada disso antes do livro de Julia.   Isso quer dizer que na cozinha a palavra "simples" nem sempre é sinônimo de fácil?   Simplicidade para mim implica em autenticidade. Uma receita realmente simples não pode prescindir de um único ingrediente sem que o resultado fique comprometido. Potage Parmentier (veja receita abaixo) é feita com ingredientes comuns e a técnica usada é fácil de entender. Apesar de haver esforço na preparação, é algo bem trivial. Talvez as coisas só se tornem simples se você se responsabilizar inteiramente por elas. Acho que isso se aplica além da culinária.   Parece que uma Potage Parmentier mudou sua vida. A comida pode exercer um papel revolucionário para algumas pessoas?   Ah, com certeza. Sou a prova viva disso, mas acho que a paixão também é fator decisivo. Comida é minha paixão. A Potage Parmentier e Julia Child acordaram essa paixão em mim de forma que nunca tinha experimentado antes. Algumas pessoas podem ter a mesma sensação com sky diving, suponho, mas para mim foi a comida que exerceu esse papel.   Você escreveu que a primeira vez que experimentou o gosto do pecado foi ao ler Os Prazeres do Sexo e a segunda foi com MtAoFC. Essa é uma associação muito comum...   Sim, mas já tive momentos, numa mesa de jantar, tão intensamente eróticos quando o melhor sexo que já fiz na vida.   Qual a receita mais surpreendente desses 365 dias?   Acho que foi fazer pepinos assados. Para mim foi uma completa surpresa ser possível cozinhar pepinos por uma hora e eles não virarem uma massa disforme, além, é claro, do fato de estarem absolutamente deliciosos e refrescantes.   Toda essa experiência mudou sua relação com a comida?   Com certeza. Ainda não sou uma grande chef, pelo contrário, mas agora tenho uma compreensão sobre os alimentos que não tinha antes. Agora tenho muito mais sensibilidade ao provar a comida. Essa experiência toda me deu várias dicas e melhorou minha intuição na hora de cozinhar. Agora compreendo os cheiros, os sons e a forma como os ingredientes se misturam. Ainda cometo muitos erros, mas não sou mais derrotada por eles.   O que uma pessoa precisa para ser um bom cozinheiro?   Acho que basicamente, interesse, paciência e habilidade para manter o fôlego e não entrar em pânico (que é o pior sentimento na cozinha). Ah, também acredito que vegetarianos não costumam ser bons cozinheiros. Não digo que comida vegetariana não pode ser maravilhosa, mas acho que a refusa em admitir que bacon é algo maravilhoso é tão incompreensível quanto um pintor decidir que odeia amarelo e que nunca vai usar amarelo.   Após a aventura MtAoFC qual sua opinião sobre Julia Child?   Julia Child se tornou uma inspiração para a vida toda. É muito difícil assumir riscos em busca de inspiração e prazer. Ela era uma mulher difícil de se lidar, mas também era generosa e alegre - nessas virtudes, gostaria de ser como ela.   O que Julia Child acharia de seu livro?   É tão difícil imaginar... Gostaria que ela pensasse no livro como um tributo, não apenas a seus grandes feitos na cozinha, mas também a sua grande qualidade de viver a vida em sua plenitude. Tenho certeza que ela pensaria que sou terrivelmente imatura, um pouco presunçosa até, mas realmente gostaria que ela percebesse o amor que tenho por ela e a inspiração que foi para mim.   Pretende escrever seu próprio livro de receitas? Como seria?   Acho que nunca poderia escrever um livro de receitas. Para ser honesta, não tenho vontade. Há tanta gente que faz isso tão bem. Mas se fosse escrever um livro de receitas seria sobre os maravilhosos pratos da minha infância no Texas e sobre minhas refeições com um orçamento reduzidíssimo em Nova York. Apesar de ter tão pouco dinheiro, comia bem!   Receitas   Cucumbers a La Grecque Adaptado do livro Mastering the Art of French Cooking de Julia Child por Julie Powell   Ingredientes 2 xícaras de água 6 colheres (sopa) de azeite de oliva 1/3 xícara de suco de limão 1 colher (chá) de sal 2 colheres (sopa) de cebolinha 1 bouquet garni 6 galhos de salsinha (com o talo) 1 talo de aipo pequeno com as folhas 1 punhado de erva-doce ou 1/8 de colher (chá) de semente de erva-doce 1 punhado de tomilho fresco ou 1/8 de colher (chá) de tominho seco 12 grãos de pimenta do reino 6 sementes de coentro 3 pepinos   Preparo Retire a casca do pepino, corte-o em sentido longitudinal e remova as sementes com uma colher. Corte o pepino na forma de palitos e, em uma tigela, acrescente 1/2 colher (chá) de sal e deixe descansar por 20 minutos. Enquanto o pepino descansa, coloque todos os outros ingredientes, picados em uma panela. Deixe cozinhar por 10 minutos em fogo médio até que os vegetais estejam tenros. Drene a água do pepino e reserve. Ajeite o pepino numa tigela. Coloque essa água na panela, leve ao fogo e espere reduzir a 1/4 de xícara. Despeje esse caldo sobre os legumes. Em seguida misture os legumes ao pepino e salpique com as ervas frescas antes de servir.   Potage Parmentier Adaptado do livro Mastering the Art of French Cooking de Julia Child por Julie Powell   Ingredientes 4 xícaras de batata descascada e cortada em pedaços pequenos 3 xícaras de alho-poró cortado finamente 500 ml de água 1 colher (chá) de sal 5 colheres (chá) de creme de leite fresco 3 colheres (chá) de salsinha e cebolinha para finalizar   Preparo Combine as batatas, o alho-poró, a água e o sal numa caçarola grande. Cozinhe em fogo algo até levantar fervura. Em seguida, diminua o fogo e deixe cozinhar por 40 minutos ou até que os vegetais estejam macios. Amasse a batata e o alho- poró na própria panela com um garfo ou use um blender (se você usar esse utensílio, transformará a sopa em algo "antifrancês e bem monótono", de acordo com Julia Child!). Fora do fogo e pouco antes de servir, misture o creme de leite e salpique as ervas.

Mais conteúdo sobre:
Julia Child Julie Powell

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.