Na rua, com a porta para a calçada

Reportagem sobre migração de restaurantes para shoppings, publicada no 'Paladar' na semana passada, desperta defesa das casas de rua e da importância de ocupar o espaço público para que, assim, ele se torne mais seguro

JOSÉ ORENSTEIN, O Estado de S.Paulo

07 Março 2013 | 02h12

A rua é para ser ocupada - e há gastrônomos que fazem questão de vocalizar essa afirmação. Na semana passada, o Paladar mostrou que há um movimento em São Paulo de restaurantes abrindo filiais dentro de shoppings. Em reação à reportagem, chefs e donos de restaurantes manifestaram-se, revelando um nervo exposto na cena gastronômica paulistana.

Marie-France Henry, dona do La Casserole, tradicional restaurante francês no centro é enfática: " Não podemos perder a referência do espaço público. É preciso colocar vida nas ruas. E quanto mais movimento na rua, mais ela fica segura". Marie diz que não consegue enxergar o La Casserole dentro de um shopping, tamanha "a simbiose do restaurante com o Largo do Arouche e as bancas de flores na frente".

Já Ana Massochi, dona dos restaurantes Martín Fierro, La Frontera e Jacarandá - na Vila Madalena, Consolação e Pinheiros, respectivamente -, diz não ver uma oposição necessária entre restaurantes de shopping e de rua, mas não abre mão do acesso direto às calçadas em suas casas. "Eu só vou para um lugar em que eu possa ver o céu", diz.

Ela afirma que é preciso "se apropriar da rua" e que o restaurante tem de cuidar dela, mantê-la limpa. Admite que a onda de arrastões acabou espantando a clientela - especialmente no La Frontera - e recorre à segurança privada e manobrista. "É o que a sociedade pede. Na verdade é um problema político, o Estado tem de cumprir seu papel. E sempre serei a favor da rua." A restauratrice reconhece que há espaço para todo tipo de negócio. "Não dá para julgar quem vai para shopping - é uma oportunidade de negócio."

A chef do Bar da Dona Onça, no térreo do Copan, com mesas na calçada e grandes vidros que dão para a rua, Janaína Rueda, é outra que não tira o pé do passeio público. Conta que até recebeu convite do shopping Cidade Jardim para abrir filial por lá, mas recusou. "Estou na rua desde pequena, nasci no Brás e sempre vou defender o centro da cidade. Gosto de gente", diz. "Mas não tem jeito, o shopping é a nossa praia. E quer saber? Acho ótimo que você possa comer bem dentro de shopping também", pondera. "Não importa onde, para mim o negócio é comer bem."

Praça do povo. O temor de uma debandada dos restaurantes da rua - como aconteceu com os cinemas - dissipa-se diante de uma outra tendência: eventos de comida de rua têm se tornado cada vez mais comuns.

A Feirinha Gastronômica, na Vila Madalena, reúne chefs, produtores e aspirantes a cozinheiros em 20 barracas na rua todos os domingos. Já foram três edições neste ano, com público médio de 4 mil pessoas, diz Maurício Schuartz, organizador do evento. "Vem gente da cidade inteira e até de fora." Ele comanda também o evento Chefs na Rua, que leva nomes consagrados para fazer pratos de R$ 5 a R$ 15 e que, na Virada Cultural do ano passado, juntou milhares de pessoas no Minhocão em busca de comida boa.

O evento O Mercado, organizado pelos chefs Checho Gonzales e Henrique Fogaça, é outro exemplo. Com barracas dentro dos Mercados Municipais, atraiu 6 mil pessoas por edição. No próximo dia 17, no Modelódromo do Ibirapuera, espera 15 mil pessoas. "Rua ocupada é rua segura", diz Gonzales.

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