Na Sapopemba, 110 atropelamentos

Em 2009, a avenida da zona leste da capital paulista foi a que o Corpo de Bombeiros registrou mais acidentes

Cristiane Bomfim, Elvis Pereira e Felipe Oda, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2010 | 00h00

A Avenida Sapopemba, que atravessa bairros da zona leste de São Paulo, foi a via com maior número de atropelamentos em 2009. Levantamento do Corpo de Bombeiros apontou 110 casos no local, uma média de um a cada três dias. Em toda a cidade, o número de ocorrências caiu: foram 10.105, 623 a menos em comparação com 2008.

Além da Sapopemba, estão entre as vias com maior número de atropelamentos as Avenidas do Estado, Senador Teotônio Vilela, Marechal Tito e a Estrada do M"Boi Mirim. O perfil dessas vias se encaixa nas características consideradas por especialistas propícias para esse tipo de acidente: estreita e com grande fluxo de pessoas, carros e ônibus.

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) informou que não comentaria os dados do Corpo de Bombeiros por desconhecê-los. Acrescentou ainda que tem a meta de reduzir o número de atropelamentos até 2012 e que as mortes vêm caindo sucessivamente ano a ano.

Na Avenida Sapopemba é difícil encontrar um comerciante que não tenha presenciado um atropelamento ou acidente de trânsito. "Tem quase toda semana. Os pedestres são abusados. Os motoristas, mais ainda", diz a lojista Cláudia Aparecida dos Santos, de 38 anos.

A via concentra lojas, bancos, lanchonetes, restaurantes. Estreita e de mão dupla, por ela passam ônibus, carros, motos e caminhões. Os números dos bombeiros mostram que, dos 110 atropelamentos, 89 foram provocados por carros, 15 por motocicleta, 4 por ônibus e 2 por caminhões.

E mesmo com sinalização de velocidade, semáforos, faixas de pedestres, lombadas - uma delas eletrônica - e asfalto em boas condições, o trecho em que fica a loja de Cláudia é um dos mais perigosos da avenida. Entre os números 8.000 e 9.000 foram registradas 14 ocorrências no ano passado. Uma delas, em dezembro, envolveu uma amiga da lojista.

Em um sábado, às 14h30, Ilda Mataruco, de 59 anos, dona de uma loja de calçados, foi atropelada por uma moto quando tentava atravessar a avenida. A tentativa ocorreu fora da faixa de pedestres, a 200 metros do local do acidente. O trânsito estava parado por causa de uma batida com três carros, um pouco acima. "Passei entre dois ônibus, quando um motoqueiro me acertou", conta. A lojista estava com o neto de 8 anos e só teve tempo de jogá-lo para o outro lado da via. O saldo do acidente: 40 pontos abaixo da barriga e uma operação no joelho.

Os dados gerais dos bombeiros mostram que a queda nos casos de atropelamento em toda a cidade foi puxada pelas ocorrências com carros, cujo total caiu de 8.854 para 8.042. No caso de motocicletas e ônibus, no entanto, houve mais casos. As motos se envolveram em 1.405 atropelamentos - 132 casos a mais ante 2008. O mesmo se repetiu com ônibus: o total passou de 350 para 386.

Com menos atropelamentos, menos pedestres foram vitimados no ano passado. Em 2009, sofreram ferimentos leves 7.691 pessoas. Outras 193 morreram. Em 2008, houve 8.604 feridos e 263 mortos. No entanto, o número de mortos pode ser maior, uma vez que o balanço dos bombeiros não inclui as vítimas que morrem a caminho do socorro ou no hospital. Esse dado é apurado pela CET.

RESPEITO

Para especialistas em trânsito, o pedestre não é respeitado em São Paulo. Faltam sinalização - como faixas de pedestres e semáforos específicos para travessia de vias - e bom senso dos motoristas. "Educação e sinalização poderiam reduzir muito os atropelamentos na capital", afirma Sérgio Ejzenberg, engenheiro consultor de tráfego e mestre em Transportes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, a simples mudança de local da pintura da faixa de travessia traria resultados, principalmente em cruzamentos onde não há semáforos. Ejzenberg também diz que o tempo dos semáforos deve ser repensado. "Tem de levar em conta a distância que o pedestre tem de atravessar."

Para Salomão Rabinovich, presidente da Associação das Vítimas de Trânsito (Avitran), não se pode culpar só o poder público. "A responsabilidade é também do pedestre que não tem consciência do perigo e do motorista que tem uma máquina poderosíssima." Segundo a superintendente de Educação e Segurança da CET, Nancy Reis Schneider, muitos pedestres atravessam fora da faixa e não observam a sinalização. Já motoristas não respeitam limites de velocidade e fazem conversões proibidas.

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