Jonne Roriz/Estadão
Jonne Roriz/Estadão

Não cantaremos a internet

Com a toxicodependência cognitiva que causa, ela deve ser proibida em aula, diz professor

Julio Groppa Aquino,

29 Março 2014 | 16h00

Meu pai morreu há exatos 20 anos; ele não conheceu a internet. Nem minha mãe, que se foi logo depois. Nem Guimarães Rosa, nem Clarice Lispector, nem Carlos Drummond - de quem parafraseio o título acima. É bem provável que Cazuza tampouco. Michel Foucault, certamente não. Teriam eles nos legado o que legaram caso tivessem sido interceptados pelo imperativo informativo-comunicacional perpetrado pelo advento da rede mundial de computadores? Teriam eles páginas próprias? Valer-se-iam do Google para construir seus feitos? Responderiam a nossos e-mails?

As discussões no Parlamento brasileiro em torno do Marco Civil da Internet constituem uma ocasião propícia para que ganhemos alguma distância reflexiva acerca desse fenômeno sociocultural sem precedentes na história humana, cujos efeitos sobre nossos modos de vida se mostram não apenas incontáveis, mas também cada vez mais sombrios.

Sobretudo para aqueles responsáveis pela educação das novas gerações, um dilema prosaico se perfaz a cada dia: jogar a toalha, ou não, para o uso dos aparatos comunicacionais em sala de aula. Alguns mais afoitos dirão que se trata do ensino de modos adequados de apropriação das tais TICs (tecnologias de informação e comunicação), ou, em termos mais pedagogicamente corretos, da boa alfabetização digital. Já que supostamente não se poderia viver sem tais tecnologias, que as tornássemos nossas aliadas na lida do ensinar.

Outros, mais sóbrios talvez, revelam-se incapazes de evitar uma atitude de desconfiança em relação a um mundo em que ver e ouvir converteram-se em ações inimaginavelmente mais sofisticadas do que imaginar e reinventar o que se viu/ouviu. Um mundo em que os pequenos acontecimentos da vida não mais afetam por sua singularidade e, em última instância, por sua falta de sentido imediato. Um mundo em que os pequenos feitos cotidianos passam a ganhar veridicidade apenas quando convertidos em uma imagem fotográfica a mais postada naquele desfiladeiro sem fim de banalidades confessionais que chamamos de Facebook. Um mundo também de espionagem, de delação e de falcatruas virtuais, erigido sob a batuta de uma presumida participação democrática, autônoma e paritária, já que ancorada no usufruto do direito a opinar sobre todas as coisas, em qualquer tempo ou circunstância. Um mundo, enfim, em que internauta se converteu em sinônimo fático de ser vivente.

Nada contra a internet. Longe disso. Sou um perfeito escravo dela, assim como uma parcela crescente dos bilhões de conterrâneos planetários meus. Mas, em sala de aula, sua entrada é terminantemente proibida. A justificativa para tanto tem menos a ver com a ditadura que ela instaurou em nossos modos tão instantâneos quanto indiferentes de ser, de pensar e, sobretudo, de conviver e mais com a toxicodependência cognitiva que ela vem causando nas novas gerações. Vítimas comuns de algo que poderíamos designar, sem qualquer ensejo estigmatizador, como "síndrome de abstinência virtual", as novas gerações vêm se apropriando dos aparatos comunicacionais (cujo exemplo magno são os smartphones) como extensões do próprio corpo, e jamais como o que de fato são: eletrodomésticos portáteis. E já que não carregamos esses para dentro de uma sala de aula, não há o mínimo sentido para fazê-lo com aqueles.

O que está em causa numa sala de aula são precisamente os embates narrativos típicos do encontro entre os mais velhos e os mais novos; nada além. E o que designa o tom narrativo de um professor é a morosidade, a persistência e o rigor do pensamento. Nenhum artifício. Nenhuma surpresa. Nenhuma sedução. Apenas um rude trabalho.

Daí a incongruência absoluta entre a ambiência pedagógico-escolar e os conteúdos despejados a fórceps pela indústria cultural, essa que encontrou na internet seu terreno fértil e braço forte. Isso significa que não se pode reduzir o âmbito da literatura a Caetano Veloso, o da música a Ivete Sangalo, o da sociologia ao Big Brother, o do pensamento à Wikipedia. Trata-se de grandezas de diferentes ordens, por assim dizer e na melhor hipótese. O diferencial entre elas reside no fato de que o terreno educacional é o abrigo dos mortos, esses que, paradoxalmente e sem cessar, nos ensinam a viver.

Àqueles devotados à educação no presente, toca-nos uma espécie de apego a um anacronismo pedagógico radical, consubstanciado num tríplice gesto: responsabilidade intelectual inquebrantável, vontade política de levar ao longe algumas ideias que mereceriam ser lembradas pelas novas gerações, bem como alguma fibra ética para suportar o tranco dessa escolha.

Restemos nós, esquecidos pelo mundo, entre livros velhos, empoeirados e malcheirosos. Restemos nós, esquecidos do mundo, a entoar aquilo que já ninguém mais quererá testemunhar. Alguém distraído, quem sabe, se comoverá conosco ou, tanto melhor, em nosso lugar.

Só então Drummond virá em nosso encalço: "Depois morreremos de medo / e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas".

JULIO GROPPA AQUINO É LIVRE-DOCENTE DA FACULDADE DE EDUCAÇÃO DA USP

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