Não era tudo isso

O "pibinho" do terceiro trimestre não foi a surpresa maior. A surpresa maior foi o tamanho da revisão a que o IBGE submeteu os números dos trimestres anteriores. É como, num voo de São Paulo para Nova York, o comandante anunciar que está próximo do destino, mas depois avisar que houve um engano e que o avião ainda está à altura de Miami.

, O Estadao de S.Paulo

11 Dezembro 2009 | 00h00

Os analistas esperavam que o PIB do terceiro trimestre houvesse avançado alguma coisa em torno dos 2,0% sobre o segundo. Mas a evolução foi de apenas 1,3%. Com esse allegro ma non troppo mais as revisões dos dois trimestres anteriores, o PIB acumulado no ano (até setembro) ficou 1,7% menor do que estava ao final de dezembro passado e 1,0% menor do que há 12 meses.

A revisão para baixo do PIB tanto do primeiro como do segundo trimestre teve um impacto enorme. Imaginava-se que a queda composta dos dois primeiros trimestres tivesse sido de 3,0%, mas a revisão das Contas Nacionais apontou para uma retração ainda maior, de 3,7%. Quem pensava que a economia estava "bombando" descobriu agora que ela tem de "bombar" ainda mais para tirar o atraso.

O economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, deu uma ideia do que isso significa: a partir dos números revisados, para que o avanço do PIB de 2009 seja de zero por cento, o crescimento da renda do último trimestre terá de ser de 3,6%. Como esse número é improvável, também é inevitável contar com um crescimento negativo para todo 2009.

Um leitor atento poderia perguntar: "Se os economistas do IBGE fizeram ajustes para baixo de tal magnitude, quem garante que não farão ajustes equivalentes do PIB do terceiro trimestre, mas, dessa vez, para mais?" Sim, correções para mais e para menos podem perfeitamente acontecer. O problema é que o IBGE incorporou aos cálculos os novos pesos das Contas Nacionais aferidos a partir dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) em substituição aos resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). Os números do terceiro trimestre já estão com essas novas ponderações que, por sua vez, vão prevalecer nos cálculos seguintes. Assim, mesmo que haja algum ajuste, não será mais de magnitude tão grande.

A partir desse novo quadro, há duas observações que se podem fazer. A primeira delas é a de que o consumo vinha sendo, na prática, mais baixo do que se imaginava. Assim, há um risco bem menor de que a produção nacional não consiga dar conta do aumento da demanda. Em outras palavras, o aumento dos juros, que tantos analistas previam para o ano que vem de maneira a ajustar oferta e demanda, talvez não seja mais necessário.

Segunda observação: as mesmas razões que levam agora a concluir que o avanço do PIB em 2009 ficará negativo apontam um avanço mais baixo para 2010. Em vez dos 5,5% ou 6,0% com que os analistas vinham contando, as projeções devem se conter em alguma coisa próxima dos 5,0%.

E ainda é preciso ver se a nova foto das Contas Nacionais não servirá para que o governo Lula justifique o despacho de outros pacotes de bondades para o setor público a serem apresentados como políticas anticíclicas.

Confira

Sem transferência - A presidente do Chile, Michelle Bachelet, vem obtendo aprovação de mais de 80% dos eleitores, equivalente à que o presidente Lula recebe aqui no Brasil. Mas, diante das rachaduras da aliança de centro-esquerda (la Concertación), não consegue transferir seu prestígio para seu candidato à Presidência, o democrata-cristão Eduardo Frei. É o Chile antecipando o que acontecerá também por aqui?

Dívida e moeda - A esticada das dívidas públicas da Grécia e da Espanha começa a pesar no barco do euro. É a política fiscal interferindo no desempenho da política monetária do Banco Central Europeu...

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.