Edison Temoteo/Futura Press
Edison Temoteo/Futura Press

Não foi o mordomo

Caso da família morta com 'bolo envenenado', ou 'pelo namorado da mãe', confirma que no trabalho policial a especulação é inimiga da investigação

Guaracy Mingardi,

28 de setembro de 2013 | 15h10

As histórias policiais nunca são simples. Na ficção, qualquer investigação de homicídio sempre tem reviravoltas inesperadas para manter o interesse do leitor até o final. Nos livros de Agatha Christie, a cada página a suspeita se volta contra um personagem diferente. E só no último minuto que a trama é revelada.

No mundo real as coisas são um pouco mais simples. A maioria dos casos tem motivos claros e não existem inúmeros suspeitos. Ou a polícia sabe exatamente quem matou ou não tem a mínima ideia. Outra diferença básica é que o assassino não confessa espontaneamente no último capítulo. A polícia e o Ministério Público têm de construir uma boa cadeia de provas para convencer os jurados. A não ser quando é um caso midiático. Aí vira uma novela, em que aparecem inúmeras versões do fato, ou certezas absolutas. Todas supostamente baseadas na versão oficial. E o jurado já chega com a certeza da culpa, mesmo sem ter sido apresentada às provas.

Ainda bem que a perícia foi rápida no caso de Dina Vieira da Silva. A primeira versão é que teria se matado com os filhos. Seria o terceiro caso seguido de alguém que mata a família e em seguida se suicida. Depois, o culpado era Alex Pedraza, o namorado boliviano de Dina, que ficou preso uma semana por suspeita de envenenamento. E já começavam a aparecer histórias sobre seu caráter ou comportamento. Um ex-namorado de Diná, pai de uma das meninas, disse que suspeitava do preso, sem explicar os motivos. E a polícia já havia levantado três queixas da morta contra ele por ameaça.

Eis que a situação reverte. O bolo com o qual ele teria provocado a morte das cinco vítimas não continha veneno. Agora o principal suspeito é um vazamento de gás. Além de não encontrar sinais de veneno no bolo, a perícia descobriu indícios de vazamento de monóxido de carbono no aquecimento do chuveiro, o que, aliado ao fato de que o apartamento estava todo fechado, sugere que um acidente teria provocado a morte das cinco pessoas.

Notem que no parágrafo anterior eu disse “teria”. Mesmo que fique comprovada a tese do envenenamento por gás como causa mortis, o acidente é somente a última versão, nada está comprovado. Ainda pode ter sido resultado de uma ação da mãe, do namorado boliviano ou mesmo de terceiros. Em suma, o caso não está fechado. Apesar disso as especulações vão continuar pipocando, alimentadas por informações vazadas pela polícia. E, no meio da bagunça, Pedraza, culpado ou inocente, foi para a cadeia e teve a vida posta em risco sem a menor necessidade. Aliás isso aconteceu recentemente num inquérito de outro tipo que alvoroçou a imprensa. Um delegado foi preso por suposto vazamento de informações. Dias depois o promotor responsável pela investigação pediu a soltura e admitiu que o delegado não tinha culpa. Aí não adianta mais, a carreira dele já foi pelo ralo. Em ambos os casos houve muita pressa em prender e aparecer na mídia.

É nessa pressa que mora o problema. Numa investigação em aberto os responsáveis deveriam guardar algum sigilo, tanto para não apresentar hipóteses não comprovadas quanto para não alertar os possíveis suspeitos. Aliás, essa foi uma regra que aprendi na Academia de Polícia há quase 30 anos. Lembro de um professor dizendo que a melhor coisa quando não se quer chegar a lugar algum é contar cada passo da investigação, cada hipótese, à imprensa. Ele deu como exemplo a investigação do caso Baumgarten, empresário morto com suspeita de participação dos órgãos de repressão da ditadura. Para não chegar a nenhum resultado comprometedor e mostrar serviço, o delegado teria montado um circo, exibindo a única testemunha a todo mundo. Não sei se o professor estava certo sobre as motivações do delegado, mas o fato é que ninguém foi condenado pelo crime.

Os maiores problemas ocorrem quando a fonte do vazamento não é a equipe que investiga o caso. Alguns órgãos de imprensa se especializaram em puxar pela língua qualquer policial, civil ou militar, mesmo que não participe da investigação. Aí a informação, ou palpite, fica quase oficial. Aparece nos programas sensacionalistas como certeza absoluta, provocando uma montanha de testemunhos adulterados e/ou falsos, de pessoas que só querem aparecer. Na prática isso atrapalha uma investigação séria e acaba por canalizar esforços na direção errada. Se os responsáveis pelo inquérito devem manter sigilo até ter certeza dos fatos, imagine então outro policial qualquer.

É dever tanto do repórter quanto do policial buscar os fatos, é isso que se espera deles. O procedimento de ambos, porém, tem de ser diferente. Enquanto o primeiro deve dar a notícia o mais rápido possível, furar a concorrência, o outro só pode se manifestar quando tiver certeza jurídica do fato. Falar só com plena convicção e provas. Não adianta dizer que foi o Zezinho da Rua B que cometeu o crime se não tiver a qualificação do Zezinho, o endereço e provas contra ele. Falar antes da hora só ajuda a espantar a lebre.

* Guaracy Mingardi é doutor em Ciência Política pela USP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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