''Não me importo com Lula''

Ex-presidente diz que Uruguai precisa ter cuidado para manter independência em relação a Brasil e Argentina

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2009 | 00h00

Vinte anos depois de ter vencido sua primeira eleição presidencial, o ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-95), o líder do partido Nacional, conhecido como "Branco" está novamente na corrida eleitoral. Seus críticos ironizam e citam o cantor de tango Carlos Gardel (que para os uruguaios é um compatriota, e não um francês como afirmam os argentinos) e sua canção "Volver" (Voltar) cujos versos dizem "vinte anos não são nada".

Lacalle, a esperança dos "brancos" de voltar ao poder, retruca e afirma que aprendeu muito nessas duas décadas.

Ele promete que um eventual segundo governo ele terá "mais sabedoria e humildade". E admite que, se vencer, não contará com maioria parlamentar. "Vamos ter de ter uma atitude de diálogo com os outros partidos".

Nas pesquisas, Lacalle está em segundo lugar. Em entrevista ao Estado, ele considera a coalizão de governo Frente Ampla, cujo candidato é o ex-guerrilheiro José Mujica, não conseguirá a metade mais um dos votos. Desta forma, haverá um segundo turno no qual, ele espera, os uruguaios optarão por ele próprio.

Como o sr se enquadra dentro do leque ideológico uruguaio? Seus críticos o definem como um neoliberal.

Sou um nacionalista pragmático. Meu partido possui 173 anos de história. Surgiu pouco tempo depois da independência do Uruguai. É um dos mais antigos do mundo. Ora, surgiu muito antes que existisse o comunismo. Eu não sou de direita. Eu sou quem eu sou. Aqui no Uruguai não existe uma "direita". O partido Nacional, na política internacional, tem a seguinte posição sobre o Uruguai: ser cliente de todos, amigos de muitos, aliado de quem convenha, parecido com alguns, mas igual a nenhum. Não me importa Lula, nem Fernando Henrique Cardoso, nem os (partidos argentinos) peronistas ou a União Cívica Radical. Tenho uma visão muito anglo-saxã da política externa. Tal como dizia Lord Castelreagh, "a Grã-Bretanha não tem amigos nem aliados permanentes, tem interesses permanentes!" E nós, uruguaios, que nascemos entre esses dois países de maior tamanho, temos que ter cuidado para manter nossa independência em relação ao Brasil e a Argentina. E o governo do presidente Tabaré Vázquez cometeu o erro de fazer a política exterior de acordo com suas identificações ideológicas.

Mujica, seu atual rival, foi colega seu de partido, pois ele iniciou a vida política nas fileiras do Partido Nacional.

Mujica até estava dentro do mesmo grupo que o meu, o "Herrerismo" (subdivisão dos nacionais lideradas por Luis Alberto de Herrera, caudilho uruguaio, avô e padrinho político de Lacalle). Ele me conhecia Mas a verdade é que eu não me recordo dele. Eu era um pouco mais famoso, não digo isso com desprezo, mas é que eu era candidato a presidente da juventude de meu partido e ele era um dos 500 rapazes que ali estavam.

O que o sr. pensa do Mujica atual?

É um radical, ao contrário de Vázquez, que tem características mais parecidas aos social-democratas europeus. Mujica diz coisas impublicáveis. Muda de ideia toda hora. É imprevisível.

O sr., se vencer, sabe que não contará com maioria parlamentar...

E horrível governar sem maioria. Já me aconteceu isso quando fui presidente. Mas, sei lidar com isso.

Como avalia o governo de Tabaré Vázquez?

Espantoso. Soltou presidiários. Aplicou impostos aos aposentados. E decretou que ocupar lugares de trabalho é uma extensão do direito de greve.

Teve algum mérito?

Sim, o plano Ceibal (programa que possibilitou que cada criança do primeiro grau tenha um laptop e acesso à internet). Mas este é um governo que teve tudo a seu favor: a primeira maioria parlamentar em 40 anos. E teve a prosperidade econômica mundial.

O sr. foi um dos quatro "líderes fundadores" do Mercosul (junto com o brasileiro Fernando Collor de Mello, o paraguaio Andrés Rodríguez e o argentino Carlos Menem). Como esse "filho" evoluiu depois do "parto" do qual participou ativamente?

Infelizmente, eu mal reconheço esse filho. Só acreditaria que isso aqui foi meu filho se fizerem um exame de DNA. A verdade é que o Mercosul, do jeito que está, não dá para reconhecer. O Mercosul não ajudou meu país. Deveria ser reformulado, e de maneira profunda. Do jeito que está, está totalmente desvirtuado. Existe uma bilateralidade brasileiro-argentina que nos deixa de lado. "Infelishmentchi" (imita com ironia o sotaque carioca) é assim.

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