''Não podemos esperar para começar a agir''

Quanto antes o Brasil entrar na rota do desenvolvimento de [br]baixo carbono, melhor, diz professor da USP

Entrevista com

Herton Escobar, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

Jacques Marcovitch:

coordenador-geral do estudo

Cortar ou não cortar emissões? Agora a decisão ficou fácil para o Brasil: "Cortar", diz o coordenador-geral do estudo sobre Economia da Mudança do Clima no Brasil (EMCB), Jacques Marcovitch. "Não há mais outra alternativa."

Assim como fez o Relatório Stern quatro anos atrás, diz ele, o EMCB mostra que reduzir a emissão de gases do efeito estufa para combater o aquecimento global agora é um investimento muito mais inteligente do que esperar para arcar com as suas consequências depois. "A inação será muito mais onerosa no futuro", afirma Marcovitch, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo ele, "o Brasil só tem a ganhar" com a opção por um desenvolvimento de baixo carbono, atrelado a metas de redução de emissões. "É um grande convite à inovação. Estamos desafiando as atuais e futuras gerações a assumir um padrão mais moderno de desenvolvimento." A seguir, os principais trechos da entrevista exclusiva ao Estado.

Considerando todos os números, qual é a mensagem principal do estudo que o senhor coordenou?

A mensagem principal é que precisamos antecipar mudanças por meio de ações que envolvam políticas públicas, iniciativas no setor produtivo, redução do desmatamento e, acima de tudo, formação de recursos humanos que estejam prontos a se engajar no tema da redução de emissões de gases do efeito estufa, incluindo todos os atores sociais. A redução de emissões deve ser vista como um programa de desenvolvimento. Melhorar a eficiência energética, utilizar fontes alternativas de energia, adaptar as nossas espécies vegetais, reduzir riscos na área costeira, preparar-se para eventos extremos - tudo isso constitui um projeto de desenvolvimento. Vejo isso como um grande diferencial para o País, e não um ônus, como alguns preferem interpretar.

Como fazer isso acontecer?

Os mecanismos têm de ser de ônus e bônus. Precisamos incentivar aqueles que vão na direção correta e punir aqueles que não estão engajados na construção dessa economia de baixa emissão de carbono. Toda a área tributária e de financiamento pode estar mais sintonizada com esse projeto. Produtos de baixa emissão de carbono devem ser incentivados. Empresas engajadas em projetos de redução de emissões devem ser apoiadas.

Nesse sentido, qual deverá ser o motor principal da mudança? O setor produtivo, via mecanismos de mercado, ou os governos, por meio de políticas públicas?

Acho que no Brasil temos as duas realidades. Nas regiões onde o poder público já se faz presente, como no Centro-Sul do País, caberá ao setor produtivo a grande missão, pois é ele que terá de responder aos ônus e bônus das políticas públicas que já estão sendo implementadas, tanto no mercado interno quanto no internacional. Já nas regiões onde a presença do Estado é débil ou quase inexistente - e aí me refiro à toda a Região Norte e parte do Nordeste -, a resposta vai depender de uma ação concertada do poder público e da sociedade civil.

O senhor acha que os governantes estão prontos para se engajar nesse objetivo? O Relatório Stern já mostrou há quatro anos que prevenir custa menos que remediar e, mesmo com essa racionalidade econômica a seu favor, os governos do mundo ainda relutam em agir.

Você precisa levar em conta que agir não faz parte da natureza humana. Agir é da natureza dos líderes, pioneiros e inovadores, mas eles não constituem a maioria de uma sociedade; são pessoas com características próprias, forjadas em condições especiais de adversidade ou necessidade. Essas pessoas necessitam de um momento para agir, precisam de um sinal. O que o nosso estudo mostra é que as mudanças estão em curso e não podemos mais esperar para começar a agir. Temos de agir agora.

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