''Não podemos ter dogmas porque o mundo mudou''

Ex-guerrilheiro e líder na corrida para a Presidência do Uruguai muda o tom radical e diz que Lula é um exemplo de líder na região

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Recentemente o sr. disse, em relação à integração internacional de um país pequeno como o Uruguai, que "leitão magro sonha com milharal gordo". O que o sr. quis dizer?

Temos de nos localizarmos no mundo em que vivemos. O mundo está ficando cada vez menor e estão sendo formadas grandes unidades. Nós, uruguaios, nos perguntamos o que faremos. O mundo caminha aos tropeções para a abertura econômica. Não podemos de jeito nenhum ter dogmas. É provável que, daqui a um certo tempo, tenhamos de fazer algumas mudanças para nos reposicionarmos. As fronteiras ficam porosas com o desenvolvimento tecnológico. Veja que o Brasil é um país continental, mas precisa também do resto do mundo. Agora, é evidente que o Brasil possui a responsabilidade natural (de liderança no Mercosul), derivada de suas dimensões e recursos.

O sr. costuma elogiar o governo Lula e tem admiração pela forma como ele lida com a oposição. Ele é um exemplo?

Lula é um velho amigo. Há pouco, lá em Brasília, ele deu para a gente um grande conselho, o de transformar grandes tensões em negociações, não em confrontos. Ora, Lula comanda um país enorme, tem minoria no Congresso e, por isso mesmo, dá mais espaço à política do que ao confronto. E nós, aqui no Uruguai, vamos dar sustentabilidade para que os conflitos se transformem em saídas.

O sr. sempre foi favorável à integração do Mercosul. No entanto, no Uruguai, existe certo ceticismo...

O Mercosul começou de um jeito muito fenício (em alusão ao mercantilismo), essa coisa de "quanto você vende para mim e quanto eu vendo para você". Alguém pode acreditar que a agricultura argentina ou brasileira será destruída neste continente? Por muitos anos, teremos de vender alimentos ao mundo. Por isso, digo que precisamos integrar a energia, os portos, as estradas e a inteligência na região.

O sr. tem hoje 74 anos, tomará posse quase aos 75 anos e concluirá o mandato faltando poucos meses para chegar aos 80 anos. Já pensou nisso?

Outro dia me lembraram que eu serei o presidente mais velho da América Latina. Uma das coisas vantajosas da velhice é que a gente pode dizer o que pensa. Isso, porém, às vezes provoca muita confusão (risos).

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