'Não pude segurá-lo, apenas o vi de longe'

Tinha 21 anos quando descobri que estava grávida do meu primeiro filho. Eu e meu marido ficamos eufóricos e contamos a novidade para a família toda.

FERNANDA BASSETTE, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2012 | 03h04

Com 12 semanas, fiz a primeira ecografia que mostrou que a calota craniana não estava completamente fechada.

O médico me disse que desconfiava que o bebê seria anencéfalo, e pediu que o exame fosse repetido em 15 dias. Saí de lá transtornada.

Assim que cheguei em casa, liguei para o meu obstetra e perguntei o que era anencefalia. Ele me explicou e disse que, se o diagnóstico fosse confirmado, esse seria um feto inviável e morreria em poucas horas.

Eu e meu marido choramos muito. Dias depois fomos conversar com o pastor e depois da conversa mantivemos a decisão de levar a gravidez adiante.

Duas semanas depois, repeti o exame e o diagnóstico de anencefalia foi confirmado. Foi aí que eu soube que seria mãe de um menino: Cauã.

Com o diagnóstico em mãos, eu e meu marido passamos por pelo menos quatro obstetras pedindo para continuar com a gestação. Só ouvíamos não. Todos falavam que era para eu tirar, que eu só precisava pedir a assinatura de três médicos e ir ao Ministério Público. Um deles, mineiro, disse: 'Vamos tirar logo esse trem daí'.

Enxoval. Voltei ao primeiro médico, que me acompanhava, mas tive de pagar pelas consultas já que ele não atendia mais meu plano de saúde. Ele me disse que se essa era minha decisão (de manter a gravidez até o fim), a partir daquele momento eu seria uma gestante como qualquer outra.

Não fiz enxoval, comprei apenas uma manta e touquinhas para o Cauã. Minha gestação transcorreu normalmente e Cauã nasceu de cesárea no dia 8 de abril de 2009. Rodrigo, meu marido, filmou o parto. Meu filho nasceu com 3 quilos e 49 cm. Não chorou e foi logo levado para outra sala, já que teve três paradas cardíacas.

Não pude segurá-lo no colo, apenas o vi de longe. Foi nessa hora que eu realmente senti uma dor. Queria sumir. Pedi para me darem remédio para dormir, porque eu não suportaria.

Minha família e meu marido puderam vê-lo de perto e fizeram algumas fotos de Cauã, que morreu uma hora e 40 minutos depois de nascer. Rodrigo providenciou a certidão de nascimento e o atestado de óbito.

O contato mais próximo que tive com meu filho foi no velório. Minha mãe colocou o caixãozinho dele no meu colo e abriu. Foi meu momento com ele. Ali eu tive certeza de que minha missão foi cumprida. O ciclo de vida foi encerrado.

Sou totalmente contra a liberação do aborto nesses casos. Estamos falando de uma vida. Para mim, liberar é como legalizar o aborto para qualquer mulher, em qualquer caso.

Engravidamos de novo e hoje somos pais também de Isaac, um menino lindo que completará 1 ano no mês que vem.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.