'Não somos donos da Minustah, muito menos do Haiti'

Ronaldo Sardenberg: ex-embaixador do Brasil nas Nações Unidas[br]Terremoto no Haiti exige que o Conselho de Segurança mude o mandato da missão, diz veterano do Itamaraty

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2010 | 00h00

Embaixador do Brasil nas Nações Unidas tanto no governo de Fernando Henrique Cardoso quanto no de Luiz Inácio Lula da Silva, o diplomata Ronaldo Sardenberg considera que o terremoto no Haiti entrará para história como o mais duro golpe contra missões de paz nos 55 anos da ONU. Agora, afirmou ao Estado, resta ao Conselho de Segurança (CS)redefinir os objetivos da Minustah. "É preciso aplacar a questão socioeconômica, cujo fulcro é o desemprego".

Como o sr. avalia o impacto da nova catástrofe haitiana na ONU?

O terremoto no Haiti é, sem dúvida, a maior tragédia que já houve no campo das operações de paz das Nações Unidas. Toda uma equipe que já estava estruturada em Porto Príncipe não reapareceu em cena. Eles perderam a principal figura do escritório, o (tunisiano Heidi) Annabi, e o número 2, o brasileiro Luiz Carlos da Costa, além de centenas de funcionários experientes. É preciso entender que uma das maiores dificuldades que a ONU enfrenta neste momento é o próprio desfalque de seus quadros.

A mesma situação abate-se sobre o governo do Haiti, que até agora está funcionando em uma delegacia de polícia. Para se fazer uma avaliação mais abrangente da situação, é preciso levar em conta que a ONU e o governo estão paralisados.

O sr. acredita que a dimensão da tragédia muda a natureza da missão da ONU no terreno?

Sem dúvida muda a missão e alterar o mandato da operação é o próximo passo. Mandatos são fixados por resoluções do CS e este que está sendo executado é ainda de 2004. Houve modificações, colocou-se ênfase em aspectos socioeconômicos, como o Brasil solicitou. Agora, por necessidade, é preciso mudar o mandato. A ênfase terá de recair sobre a reconstrução. E não basta a ação física de reconstruir: é preciso uma cooperação para aplacar a questão socioeconômica, cujo fulcro é o desemprego.

E o sr. acredita que o Brasil tem capacidade de liderar essa ação?

Temos, sim, a capacidade de apresentar a questão. Mas a escala de ajuda necessária é muito grande, portanto é preciso o apoio dos países desenvolvidos - europeus, EUA e Canadá.

Como o sr. vê o investimento brasileiro na Minustah?

O Brasil não é dono da missão, muito menos do Haiti. Há uma preocupação com a proporcionalidade dos efetivos existentes, o Brasil tenta motivar os países que estão conosco nessa empreitada e continua a ter uma posição de liderança. Com a rotação dos efetivos a cada seis meses, mais de 10 mil brasileiros já passaram pela Minustah e têm experiência no Haiti. Em 2004, não tínhamos ninguém e a questão haitiana ainda estava entrando na pauta. Hoje é um tema estabelecido. É preciso agora um esforço para considerar os fatores do terremoto - a própria visão que o Brasil tem do Haiti deve passar por uma revolução.

Para além do Haiti, o sr. acredita que o Brasil pode ampliar sua participação em missões de paz?

A participação em missões de paz é uma coisa normal para qualquer país com a dimensão do Brasil. Paquistão, por exemplo, participa intensamente. Filipinas e Índia também. A própria Minustah é composta por diversos países. O Brasil agora está mais capacitado para participar de operações de paz. Além disso, há uma atenção crescente no Brasil para questões internacionais, porque cresce a percepção de que a posição relativa do País no mundo está mudando.

O sr. acredita que essa inserção internacional, apoiada por ações como as no Haiti, pode realmente levar o Brasil a ter um assento permanente no CS? Ou isso está se tornando uma obsessão?

Não acredito que se trate de uma obsessão. É uma reivindicação que deriva da posição brasileira no mundo. Juntamente com Japão, Brasil é o país que mais vezes esteve representado no CS. Sempre fomos considerados uma possibilidade em matéria de candidatura ao conselho.

E essa possibilidade cresce com ações como a do Haiti?

Provavelmente aumenta porque o Brasil está cada vez mais visível.

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