Não tem atum, vai atunzinho mesmo

Os peixes nos mercados de São Paulo estão cada vez menores. Para evitar prejuízos, pescadores pegam o que encontram

Tânia Nogueira,

15 de abril de 2010 | 08h46

Ouro do mar. Um único sushizinho de toro pode custar R$ 45. Foto: Marcelo Barabani/AE

 

O atum já começa a rarear em São Paulo. "Nos últimos três ou quatro anos, a quantidade baixou muito", diz Lygia Higa, dona da peixaria Morota, no Mercado Municipal de São Paulo. "Este ano, ficamos duas semanas praticamente sem atum. Cheguei a vendê-lo a R$ 75 o quilo, quando o normal são R$ 55. E olha que o peixe não era dos melhores."

 

A comerciante reclama dos pescadores. "Dizemos para o pessoal dos barcos não pescar atum pequeno, que é filhote. Mas eles respondem que, se não encontram dos grandes, não podem ter prejuízo."

 

No mercado de peixes da Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), o maior do País, a reclamação é a mesma. "Eles enchem o barco dessa porcaria", diz José Pereira, o Trovão, da Trovão Pescados, mostrando um atum galha-amarela pouco maior que uma truta - um adulto dessa espécie costuma ter mais de um metro. "Isso é filhote. A carne é ruim, fibrosa, não tem gordura. Sou intermediário, ganho comissão. Peço para não trazerem, mas tem gente que compra, e eles pescam." Segundo Trovão, os filhotes são vendidos em feiras e supermercados.

 

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A pesca de atum no Atlântico não tem período de defeso e apenas algumas espécies estão sujeitas a limites de peso ou tamanho. Existe um organismo responsável por regular os estoques de 12 espécies de atum e afins, a Comissão Internacional para a Conservação do Atum do Atlântico, a Icaat.

 

De acordo com a entidade, entretanto, mesmo com a captura de filhotes que ainda não atingiram a maturidade reprodutiva e fêmeas prestes a desovar, a pesca de atum - que chega a 6 milhões de toneladas por ano - está dentro dos limites da sustentabilidade. Para o Icaat, os peixes disponíveis são suficientes para garantir o nível de consumo atual. Ou seja: a população se recompõe a tempo.

 

Os ambientalistas discordam e recomendam consumo consciente. Pois, embora não tenham atingido uma situação limite, o albacora-cachorra e o galha-amarela também merecem atenção. "As outras espécies do gênero Thunnus ainda não estão ameaçadas ", explica a bióloga Leandra Gonçalvez, coordenadora da campanha de oceanos do Greenpeace Brasil. "Mas estão sendo superexploradas, ou seja, pescadas além da sua capacidade de recuperação, o que torna a extinção apenas uma questão de tempo."

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