Não temos Itamar Franco

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Fernando Filgueiras*, O Estado de S. Paulo

15 de setembro de 2015 | 22h00

Se Maquiavel fosse sempre adotado como o conselheiro de governantes, ele ficaria temeroso ao olhar os cenários brasileiros e a possibilidade franqueada de a República levar um duro golpe da Fortuna. Depois de curtir um longo período de bonança, o projeto político do PT ruiu quando faltou virtude para conduzir o governo de forma a promover o desenvolvimento de maneira a não se corromper pela sedução do poder. 

A Fortuna sorriu para o Brasil por um longo período, possibilitando tirar milhões de pessoas da pobreza, ampliar a riqueza e lançar o País como postulante a potência mundial. Exigente que é, a Fortuna resolveu quebrar um ciclo, que se encerra de maneira melancólica no Brasil.

O ciclo do desenvolvimento brasileiro começou com Itamar Franco, num contexto que guardava algumas semelhanças com o atual. À altura do ano de 1992, a crise política avançou depois do confisco da poupança, planos econômicos fracassados e um vazio institucional amplo, com um Congresso Nacional fragmentado e um governo sem apoio. O impeachment de Collor guardou uma proporção semelhante com o nosso atual contexto de ampliação da carestia, palavra até pouco tempo em desuso, insatisfação popular ampla, inflação e baixo crescimento econômico. O povo estava nas ruas e o clamor pelo impeachment se fez colorir pela salvação nacional de caras pintadas de verde e amarelo. O impeachment de Collor foi justificado juridicamente por um escândalo de corrupção que apenas esbarrou no presidente e levou à derrocada do governo. A justificação pública foi dada mais por razões políticas do que por razões jurídicas, em que o presidente renunciou antes de seu impedimento no Congresso. 

A situação de crise política em 1992 encontrou uma solução um tanto quanto óbvia e esperada. O então vice-presidente Itamar Franco assumiu o governo, conseguiu conter as feridas e abriu um flanco para que um novo ciclo de desenvolvimento no Brasil se iniciasse. A virtude de Itamar Franco, àquela altura, era não ter virtude alguma. O presidente era um outsider do governo, o que facilitou uma solução para a crise sem grandes rupturas e, ao mesmo tempo, produzindo mudanças. Itamar conseguiu produzir conciliação entre diversos partidos e grupos políticos e foi virtuoso o bastante para decidir por esta solução de conciliação e consenso. A queda de Collor passou sem arranhar a República e abriu caminho, por meio da conciliação, para que a estabilidade econômica se aproximasse e proporcionasse um novo ciclo. O Plano Real, obra de Itamar, foi bem-sucedido em conter a inflação e criar estabilidade para que uma série de mudanças ocorresse nos governos seguintes. 

O presidente Fernando Henrique Cardoso entendeu o contexto. Ao contrário de Itamar, apresentou todas as virtudes, mas não convenceu plenamente a Fortuna. Em seu primeiro mandato, enfrentou crises internacionais, manteve a estabilidade econômica e sucumbiu à sanha do poder. Tudo pela reeleição. Maquiou a taxa de câmbio, jogou as finanças públicas no limbo e inaugurou um período de recessão econômica. A Fortuna, então, pacientemente, esperou o fim de seu mandato. Gritos de impeachment, pela compra da reeleição, greves no serviço público e insatisfação do empresariado deram o tom de melancolia, ainda controlada, do Brasil.

Passado esse sufoco, o governo Lula também apresentou suas virtudes. Mesmo enfrentando o escândalo do mensalão, manteve a estabilidade econômica e foi virtuoso o bastante para decidir pelas políticas sociais. Conta-se que Lula tinha uma capacidade de decisão que se dava na habilidade de ouvir diferentes seguimentos, reuni-los e apontar o caminho. Criou o Conselhão e foi hábil o bastante para reunir em uma mesma mesa de negociação movimentos sociais, sindicatos, empresários e partidos. A política permitiu ao Brasil encontrar um novo caminho. A Fortuna nos sorriu, fazendo-nos navegar em águas tranquilas na seara internacional e ventos de desenvolvimento chegaram nestas terras. Elegeu sua sucessora, que não convenceu a deusa exigente.

A presidente Dilma tomou decisões erradas, sucumbiu à tentação do poder e encerrou um ciclo de desenvolvimento no Brasil no dia seguinte à sua reeleição. Maquiou a realidade econômica brasileira, não foi capaz de produzir consensos, dissolveu bases de apoio, ampliou a polarização política e agora sucumbe a um receituário antigo para resolver crises econômicas. Dilma fechou um ciclo no Brasil, criando uma sensação estranha de retorno ao passado. Um passado que insiste em nos governar e trouxe de volta a carestia, a inflação, a redução dos investimentos, greves e deterioração de serviços públicos. Além disso, um escândalo de corrupção que afeta todo o sistema político, joga na lata de lixo o projeto da esquerda e assanha as ruas novamente pela ideia do impeachment. 

Quais os cenários que se abrem? A presidente é fraca, e periga nenhuma de suas medidas se tornarem efetivas para enfrentar a crise econômica. Na seara política, qualquer resquício de paciência que havia, como a carta conjunta da FIESP e da FIRJAN, parece ter se esgotado. A realpolitik se desvelou e um cenário de amplas incertezas nos atormenta. 

Qual a saída para a crise? Antes de ser econômica, a crise é política. A exigência da Fortuna assanha dois caminhos perigosos. 

O primeiro é um possível julgamento das contas da reeleição da presidente Dilma. O caminho do TSE abriria o flanco para nova eleição. Se a eleição passada foi marcada pela dissolução do decoro e por ampla polarização entre PT e PSDB, uma nova eleição, pouco tempo depois, aprofundaria nossa crise política e criaria um cenário devastador. Não teríamos quarteladas, mas uma ausência de perspectiva por um bug do sistema político. A outra solução já foi realizada antes. O impeachment de Dilma, que já foi forte, depois enfraqueceu e agora se arvora novamente, poderia surtir o efeito de uma solução de conciliação no interior do sistema político. O problema é que agora não temos um Itamar Franco. O vice-presidente Michel Temer não é um outsider do governo e nem peça de decoração do Planalto. Traria consigo muitas dificuldades para promover um governo de transição e conciliação, correndo o risco de aprofundar a crise.  

Líderes políticos não são forjados, como foi Dilma. Eles surgem dos fatos e dos acontecimentos. Estão prontos para as tarefas mais difíceis e não se furtam a seduzir a Fortuna. O acaso, para alguns, não existe. Mas o fato é que ele precisa sorrir para o Brasil neste exato momento de incertezas e perigo. O nosso problema é exatamente a falta de líderes. 

* Fernando Filgueiras é professor do Departamento de Ciência Política da UFMG


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