''Não vou desistir da luta por indenização''

Depoimento - Maria Teresa Oliveira, responsável pelo movimento dos filhos

, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2011 | 00h00

"Estou com 55 anos. Durante toda minha vida suspeitei de que havia sido adotada, mas nunca ninguém tocou nesse assunto. Cresci numa família maravilhosa, estudei nos melhores colégios, fiz três faculdades.

Fui saber que era adotada mais de seis anos depois que meus pais adotivos morreram. Meu irmão, que era filho biológico deles, veio me contar e me entregou um recorte de jornal.

Era uma matéria publicada no Estado sobre o preconceito sofrido pelas pessoas com hanseníase. Tenho o recorte do jornal guardado comigo até hoje.

Soube, de repente, que fui arrancada dos meus pais ainda bebê porque uma lei federal determinava que isso fosse feito. Tive de engolir a notícia com caroço e tudo. Na minha idade, não podia nem me revoltar.

Meu irmão contou que meu nome de nascimento era Maura Regina e minha mãe adotiva havia me registrado como Teresa porque era devota de Santa Terezinha. Era a única coisa que eu tinha para procurar informações sobre minha origem.

Busca. Fui ao hospital-colônia Santo Ângelo, local em que minha mãe havia sido internada, e encontrei minha certidão de nascimento.

Dentro do prontuário dela havia duas fotos. Bati os olhos e tive certeza absoluta de que ela era minha mãe biológica.

Tirei cópias dos documentos e fui para o Educandário Santa Terezinha, em Carapicuíba, para onde tinham me levado ainda bebê. Lá eu soube que fui entregue para adoção quando tinha 4 meses de idade.

Também descobri que eu tinha mais duas irmãs biológicas. No meu prontuário, encontrei cartas que minha mãe escrevia para as freiras, pedindo notícias da filha com quem ela nunca conviveu.

Não sei nem explicar o que eu senti ao ler aquelas cartas que nunca foram entregues...

Diante disso, percebi que aquele problema não era exclusivamente meu, mas de inúmeras crianças que também haviam sido arrancadas do convívio dos seus pais.

Foi daí que eu tirei forças para buscar essas crianças pelo Brasil e resgatar suas histórias. Pedi demissão do meu emprego, procurei o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morham) e iniciei a minha luta.

Hoje, o cadastro de filhos de pessoas com hanseníase já possui cerca de 10 mil nomes, mas a gente estima que existam pelo menos 40 mil filhos espalhados pelo País.

Dedicação. Nesse tempo todo, eu me desliguei da minha história pessoal e passei a me dedicar aos filhos. Meu objetivo de vida é conseguir uma indenização do governo para esses filhos, assim como existe indenização para os pais.

Eu não vou passar esse Natal sem receber uma resposta sobre isso. Eu não vou desistir dessa luta. Se eu desistir, outras 40 mil pessoas vão se esborrachar no chão comigo."

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