Nas Bahamas, combate ao peixe passa pela mesa

Tina Johnson tem uma proposta simples para acabar com o peixe-leão, ao melhor estilo olho por olho, dente por dente. Se quisermos impedir que ele coma os outros peixes do recife, temos de comê-lo primeiro, raciocina.

, O Estado de S.Paulo

26 Junho 2011 | 00h00

"Afinal, é assim que acabamos com todos os outros peixes, não é? Comendo-os", argumenta a comerciante, dona de uma distribuidora de produtos orgânicos em Nassau, capital das Bahamas.

Por mais de 20 anos, Tina foi uma vegetariana radical. Mas, em setembro do ano passado, abriu uma exceção no estômago para o peixe-leão. "Achei que era minha obrigação", diz. E o melhor de tudo: "É uma delícia, cara!"

Agora, Tina não apenas come peixe-leão regularmente em casa como ganha dinheiro vendendo filés para os fregueses numa feira de produtos naturais. E a procura é grande. "Depois que você experimenta, não quer parar de comer", garante.

É o segundo ponto fraco do peixe-leão, depois da sua "arrogância". Sua carne é excelente para a culinária, com sabor suave, sem espinhos e de textura firme. Tanto que se tornou um hábito entre mergulhadores organizar churrascos de peixe-leão após uma caçada. Os peixes menores são deixados mortos no recife. Os maiores vão para a grelha, a panela ou o congelador na superfície.

Explorar essa características comercialmente, porém, tem sido mais desafiador. Assim como na barraca de Tina, já é possível encontrar o peixe-leão nas peixarias de supermercados e nos menus de alguns restaurantes caribenhos. Mas é um mercado embrionário.

O peixe-leão exige cuidados especiais por causa de seus espinhos venenosos, que dificultam o transporte e a limpeza do pescado. O que acaba desestimulando o comércio.

Veneno. Outro problema é o medo, principalmente dos moradores tradicionais das ilhas. Muitos acham que a carne do peixe-leão é venenosa, apesar de o veneno estar apenas nos espinhos. "Eu mesmo sou das Bahamas, mas tenho de admitir: o pessoal aqui é louco", diz o pescador Nehimiah Taylor, de 62 anos, morador da ilha de Eleuthera, a leste de Nassau.

Um experiente caçador de conchas e lagostas, ele vê peixes-leões todos os dias quando mergulha para trabalhar. Mesmo com o arpão na mão, porém, raramente os mata. "Se pudesse ganhar dinheiro com eles, eu mataria", diz Taylor. Caso contrário, não vale o esforço.

Sete anos após ter servido como epicentro para a invasão do Caribe, o país ainda está à caça de um plano organizado de combate à sua própria infestação. A pesca submarina é permitida, com algumas restrições - que valem para qualquer peixe. Não é permitido caçar usando equipamento de mergulho (apenas em apneia) nem utilizar arpões acionados por gatilho (somente por elástico). Projetos de lei estão em trâmite para flexibilizar essas regras no caso do peixe-leão.

Uma das dificuldades é a falta de informações científicas para embasar estratégias mais elaboradas, diz a bióloga Nicola Smith, coordenadora de um projeto piloto de monitoramento e controle do peixe-leão no arquipélago.

"Sabemos que é um problema sério, mas precisamos de mais pesquisa para poder dizer qual é a sua extensão e quais serão suas consequências", diz Nicola.

Logo no início do projeto, um mistério. Numa área próxima a Nassau onde, em 2008, foi registrada uma densidade de quase 400 peixes-leões por hectare, os pesquisadores agora não encontram mais quase nenhum peixe-leão. A notícia é boa. "Começamos a monitorar os recifes e muitos deles não tinham nenhum peixe-leão", relata Nicola. "Foi muito estranho."

O problema é que, sem entender porque isso aconteceu, os pesquisadores não têm como tirar proveito prático da informação. "É possível que seja consequência da caça", prossegue Nicola. "Mas simplesmente não sabemos." / H.E.

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