Natureza viva

Breno resistiu um pouco quando a professora Matilde o convidou para ser modelo na sua escola de arte.

Luis Fernando Verissimo,

10 de junho de 2012 | 06h14

- Sei não...

- Você só precisa posar para as moças.

Eram só moças na aula de desenho da professora Matilde.

- Mas... posar nu?

- Claro que nu.

- Sei não...

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Breno tinha um corpo atlético, bem estruturado. Um corpo clássico. Até então as alunas da professora Matilde só tinham desenhado vasos, caixas, frutas. Natureza-morta. Estava na hora de começarem a desenhar o corpo humano. Para terem uma noção de proporção e anatomia, que a natureza-morta não podia dar.

Breno topou. Afinal era só tirar a roupa, fazer uma pose, ficar parado e depois ser pago. Não havia mal nenhum. Era arte.

- Faça qualquer pose, Breno - instruiu a professora Matilde. - Uma que seja confortável para você.

Breno subiu no estrado que fazia as vezes de um pedestal e, sem querer, fez uma pose parecida com a do Davi do Michelangelo.

- Perfeito - disse a professora Matilde. - Meninas, comecem a desenhar.

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Durante alguns minutos, tudo correu bem. Mas aí aconteceu uma coisa que nunca aconteceu com o Davi de Michelangelo. Breno começou a ter uma ereção. A princípio apenas um movimento, quase imperceptível. Em seguida uma ereção completa, decididamente perceptível.

- Ai meu Deus - disse uma das moças. Outras riram. Todas pararam de desenhar. O modelo estava se mexendo. Ou uma parte do modelo estava se mexendo. Era mais anatomia do que elas precisavam.

- Breno - disse a professora Matilde. - Assim não vai dar.

- Desculpe - disse Breno. - Eu não consigo controlar. Eu...

- Pense em alguma coisa desestimulante.

- Em quê?

- Qualquer coisa.

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A professora Matilde sugeriu que Breno pensasse em água fria. Um choque de água fria. Ou pensasse na sua mãe. O que ela diria daquilo? Mas a ereção não diminuiu.

- Pense em alguma coisa horrível - ordenou a professora Matilde. - A fome na África.

- A situação no Oriente Médio - lembrou uma das moças.

- A crise da dívida na Europa - lembrou outra moça.

- Isso - disse uma terceira. - Pense na Angela Merkel!

A ereção não diminuía. E as sugestões do grupo se multiplicavam. Iam do grotesco ("Imagine que ele ficou preso num moedor de carne!") ao filosófico ("Pense na finitude humana!").

Quem entrasse na sala naquela hora não entenderia a cena. Um homem nu, visivelmente constrangido, cercado por mulheres que gritavam.

- Pense em injeção!

- Um fora da namorada!

- Um meteoro se chocando com a Terra!

- O Bashar al-Assad!

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