Negociadores do País insistiram em aprovar texto final

Pressão por acordo rápido partiu de diplomatas, e não de Dilma; temor era repetir fiasco da conferência do clima de 2009

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2012 | 03h02

A presidente Dilma Rousseff acompanhou passo a passo as negociações, falando diretamente com os diplomatas brasileiros que as conduziam, e foi a primeira a ser informada da aprovação do comunicado final, ainda do plenário da conferência, pelo telefone. Mas a pressão pela conclusão das negociações antes da cúpula de chefes de Estado e de governo não partiu dela, apesar de combinar com seu estilo. Foram os próprios negociadores brasileiros que propuseram entregar o documento pronto, com receio de que se repetisse o fiasco da conferência sobre o clima em Copenhague, em 2009.

Os negociadores brasileiros disseram a Dilma que era necessário deixar o comunicado final sem colchetes, como são marcados os trechos sobre os quais ainda não há concordância, antes da cúpula, que vai de hoje até sexta. "Os países ricos gostam de deixar para os chefes de Estado e de governo, para não decidir nada", disse ao Estado uma fonte brasileira que pediu para não ser identificada. "Veja Copenhague: não decidiram nada."

Dilma tem falado todos os dias com os embaixadores Luiz Alberto Figueiredo Machado e André Correa do Lago, além da ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Os três e o chanceler Antonio Patriota mencionaram, em entrevista coletiva ontem, o risco de que a Rio+20 terminasse sem se chegar a um consenso sobre a declaração final.

"Acho que a presidente do Brasil estava com muito medo de resvalar para a mesma situação que Copenhague", declarou ao Estado o finlandês Timo Makela, diretor de Assuntos Internacionais da Direção-Geral para o Meio Ambiente da Comissão Europeia. "Acredito que o Brasil quis evitar deixar muitas questões em aberto, o que realmente seria muito arriscado. Há muita coisa em jogo, e alguns chefes de Estado se sentem desconfortáveis quando têm de tomar decisões de última hora."

Pressão. Makela contou que a pressa brasileira criou "uma situação muito difícil" para os europeus. Isso porque os ministros do Meio Ambiente e do Desenvolvimento de cerca de dez países da UE chegaram ao Rio na segunda-feira e depararam com a pressão para aprovar o documento. Mas não só precisavam de tempo para ler o comunicado como não tinham interlocutores em nível ministerial para conversar - já que os ministros dos outros países não tinham chegado, e ministros não debatem com diplomatas.

"Os ministros perguntaram: 'Por que a pressa? Ainda temos a terça-feira'", disse Makela. "Mas acho que o governo brasileiro queria um dia de margem (entre o fim das negociações e o começo da reunião de cúpula)." Segundo o representante europeu, a decisão dos brasileiros de adiar a aprovação do comunicado para ontem foi "sábia". Se insistissem em aprovar na noite de segunda, disse, "teriam aberto uma crise".

Makela considera que a ONU cometeu um erro ao separar os grupos para discutir os temas só na última semana de maio. "Entre dezembro e março, as reuniões foram repetição. Não houve progresso", recordou. "A discussão de verdade só começou depois da separação dos grupos. Tivemos poucos dias. Isso criou alguma tensão. Mas não foi culpa do Brasil." Segundo a fonte brasileira, a "estrutura" original dessas reuniões da ONU é essa: os diplomatas chegam a um acordo sobre os objetivos a serem alcançados, para que os chefes de Estado e de governo avancem na definição dos meios de implementação dos compromissos.

Outra fonte próxima à presidente também negou ter conhecimento de que Dilma tivesse ordenado um documento sem colchetes para a cúpula, mas reconheceu: "Claro que isso era desejável. É muito bom para nós". A expectativa dos brasileiros é a de que o comunicado não seja modificado. Mas essa não é a visão da UE. "Coisas muito importantes para alguns países ainda poderão ser alteradas", prevê Makela.

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