Negócios com soja esfriam no Brasil após cancelamentos da China

Ameaças de uma trading chinesa de cancelar a compra de até 2 milhões de toneladas de soja do Brasil devido a atrasos nos embarques reduziram os diferenciais pagos nos portos e reduziram o ritmo de vendas por parte dos produtores brasileiros, mas muitos suspeitam que os cancelamentos efetivos serão muito menores.

Reuters

20 de março de 2013 | 15h24

O grupo Sunrise, maior trading chinesa de soja, disse na terça-feira que cancelaria 10 carregamentos atrasados do Brasil que haviam sido contratados para serem entregues em janeiro em fevereiro, além de 23 cargas que haviam sido contratadas para entrega entre abril e junho.

Traders e analistas brasileiros disseram nesta quarta-feira que um volume tão grande seria extremamente raro. Uma vez que os estoques estão bastante apertados nos EUA e a Argentina ainda não começou a exportar, eles duvidam que a China, país responsável pela compra de 70 por cento da soja brasileira, irá realmente desistir de um volume tão grande dos grãos.

"Eles podem até conseguir se desvencilhar dos contratos para janeiro e fevereiro que não foram cumpridos, nossa situação logística é bastante complicada, mas não é tão simples cancelar contratos futuros", disse Paulo Molinari, analista da Safras & Mercados.

Um operador de uma corretora em São Paulo, que falou em condição de anonimato, disse que de 10 a 15 navios com carregamentos de cerca de 600 mil a 1 milhão de toneladas de vários compradores haviam sido cancelados nos últimos 40 dias.

As tradings internacionais estão assumindo os custos e multas com os atrasos na liberação dos navios, mas devem tentar compensar o custo adicional ao pagar aos produtores menos pela soja.

"Por isso o mercado está paralisado, ninguém está comprando ou vendendo", disse o trader.

Dados da Safras & Mercados mostram que 58 por cento da safra brasileira de soja, atualmente com mais da metade colhida, haviam sido vendidos até 8 de março, ante 52 por cento no mesmo período no ano anterior.

Os produtores brasileiros semearam a maior área de soja já plantada no país no final do ano passado após uma seca nos EUA provocar perdas na safra. No entanto, a logística do Brasil não conseguiu acompanhar a colheita recorde, o que resultou em atrasos de envio e filas de navios que podem ultrapassar 40 dias.

Enquanto um volume recorde de soja sobrecarrega os portos, apesar dos cancelamentos dos compradores, os diferenciais pagos no porto de Paranaguá sobre os preços de Chicago se tornaram negativos na semana passada.

Um segundo trader disse nesta quarta-feira que os descontos haviam ficado ainda maiores por conta de relatos de cancelamentos de pedidos.

O Brasil, eventualmente, vai revender os pedidos cancelados de soja, apesar de que a partir de outubro os grãos brasileiros competirão com a oleaginosa norte-americana, o que pode pressionar os preços na América do Sul.

Os preços da soja para maio na CBOT atingiram um pico de 16,395 dólares por bushel em setembro, mas agora são negociados a 14,15 dólares.

No entanto, alguns analistas suspeitam que os produtores brasileiros estão na verdade segurando os carregamentos a espera de preços melhores, jogando com o mercado da mesma maneira que eles acusam a China de estar fazendo.

"No Brasil há a ideia de que poderia novamente haver um problema (com o clima) para a colheita dos EUA. Os produtores brasileiros venderam mais da metade de suas colheitas em vendas antecipadas, eles podem se dar ao luxo de fazer apostar um pouco no mercado em relação à safra norte-americana", disse Molinari.

(Reportagem de Caroline Stauffer)

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