NEIDE RIGO neide.rigo@gmail.com Todo fevereiro tem umbu

A temporada de umbu começa em janeiro e vai até abril, maio, a depender da duração das trovoadas. No ano passado a seca castigou o sertão e a safra não foi das melhores. Mas chova ou faça sol, todo fevereiro algum umbu há de ter. Por isso é neste mês a festa que celebra a colheita da fruta em Uauá, interior da Bahia. Tive o privilégio de ir ao festival pela segunda vez, a convite da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc).

O Estado de S.Paulo

07 Março 2013 | 02h17

Na paisagem da região de Canudos o umbuzeiro, com copa triangular de base larga, se destaca entre faveleiras, paus-de-rato, macambiras e mandacarus. Apesar dos leitos secos de rios, ele está sempre verde e suas folhas são finas e delicadas. O mistério está sob terra: são xilopódios na forma de grandes batatas, que armazenam água da chuva para enfrentar a estiagem.

As folhas do umbuzeiro são comestíveis, azedinhas, mas ninguém as come. Chá eles fazem, para infecção. Fiz o chá para distração, com cravo e canela, e fica muito bom. E já misturei a folha com a fruta na caipirinha.

As batatas do umbuzeiro também são comestíveis, crocantes e doces. E, embora possam ser usadas para aplacar a sede ou fazer doces, não é recomendável arrancá-las, já que elas são a reserva de água da árvore.

Bem, estou aqui falando como se todo leitor conhecesse umbu. Em São Paulo às vezes aparece nas carriolas de vendedores em bairros populares, mas não é comum encontrá-lo nos mercados, pois é fruto do extrativismo, frágil e sazonal. Quando ainda verde, mas já inchado, o umbu é crocante e doce como uma uva itália e ácido como limão. Se está maduro, pode ser verde, amarelo ou vermelho, e é suculento como uma jabuticaba. A forma mais difundida de consumo da fruta é in natura, mas pelo menos um modo de preparo é emblemático. É a umbuzada, uma coalhada feita com leite, a fruta espremida e açúcar, e é a acidez do umbu que talha o leite. No sertão, o leite pode ser de cabra e o açúcar, mascavo ou rapadura.

Outro preparo clássico é o vinagre de umbu, que infelizmente pouca gente hoje faz. Não é exatamente um vinagre, mas recebe o nome por ser bem ácido. Feito com o umbu purinho, dá trabalho, o rendimento é pouco, exige horas de fogo, mas o resultado é surpreendente - um molho escuro e denso, perfumado, ácido e naturalmente doce. Tenho certeza de que cozinheiros de plantão o comprariam pagando o preço de um bom aceto balsâmico. Sorte que dura muito tempo e que desta vez trouxe três litros garimpados a duras penas nas comunidades que lidam com a fruta. Minha campanha é para que a Coopercuc comece a produzi-lo comercialmente, assim a relíquia não se perderia.

Coopercuc:

(74) 3673-1428; www.coopercuc.com.br (veja a lista de onde encontrar os produtos da cooperativa em SP)

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