Nem mais, nem menos. Só melhor

Especial Milão. Semana de Design explora alternativas de uso do móvel sem perder de vista a questão ambiental

Marcelo Lima / ENVIADO ESPECIAL A MILÃO,

30 de abril de 2011 | 06h00

Dieter Rams, designer industrial alemão intimamente associado à empresa de eletroportáteis Braun, sintetizou recentemente sua abordagem de design na frase "weniger, besser aber", que pode ser traduzida como "menos, mas melhor". Ligado a uma concepção funcionalista do design, nos últimos tempos, seu nome têm vindo à tona sempre que se discutem os rumos do design internacional. Maior encontro mundial do setor, a Semana de Design de Milão, encerrada no último dia 17, não foi exceção.

 

Antes de mais nada inovador e esteticamente atraente, um bom produto, nas palavras de Rams, precisa ser útil e fácil de se entender. Deve conter tão pouco design quanto for possível. Deve ser durável e produzido com atenção a seus mínimos detalhes. E é, fundamentalmente, comprometido com a preservação do meio ambiente. Em poucas palavras, o ideário defendido por nove entre dez lançamentos apresentados na grande quermesse milanesa do design.

Da mostra oficial, o Salão do Móvel, concentrada nos gigantescos pavilhões de Rho-Pero, passando pelas centenas de eventos que pipocaram por toda a cidade nos eventos fuori-saloni, a ideia de ampliar ao máximo as possibilidades de utilização e fruição dos produtos - sem nunca perder de vista a economia de recursos de produção - parece ter ocupado o centro das preocupações dos designers. Mas que ninguém enxergue, em todo esse rigor conceitual, nenhum retorno ao funcionalismo rígido. Muito pelo contrário.

 

De bem com a vida e inéditos em seus formatos, uma nova safra de móveis, cada vez mais orgânicos e desarticulados, desponta no horizonte. Entre mesas, cadeiras e armários, a flexibilidade de uso se torna palavra-chave, enquanto nos domínios dos estofados (incluindo camas), a descontração é a senha. Sentar, deitar ou apenas se recostar da forma mais cômoda e individual possível são atividades que passam a ser levadas muito a sério. Tão a sério, a ponto de se transformar em pura brincadeira. Vale, por exemplo, transformar uma simples cadeira em mancebo, como fez a Moooi.

 

Exagerar nas cores como Gaetano Pesce na Meritalia. Ou ainda oferecer um canteiro de cáctus como possibilidade de assento, como fez a dupla de estilistas-designers, Maurizio Galante e Tal Lancman, para a Cerruti Baleri. Na linha de frente de toda uma geração de jovens designers que têm na representação da natureza por meio de materiais sintéticos sua principal via de expressão.

 

Seriedade mesmo, e disso ninguém parece abrir mão, surge apenas quando entra em cena a preservação do planeta. "Da cabeça aos pés, ela é totalmente natural. Construída com madeira líquida, traz na sua composição cânhamo, bambu, linho. Nos ajuda a entender como será nosso amanhã", derrete-se o über designer Philippe Starck, diante de Zartan, cadeira inteiramente biodegradável, desenhada com Eugenie Quitlet, para a Magis.

 

Um entusiasmo compartilhado pelo designer de iluminação italiano Michele De Lucchi, que, em ano de Euroluce, vê no advento dos LEDs uma revolução no desenho das luminárias. Segundo ele, é inegável que estamos diante da fonte luminosa do futuro. "Até lá vamos continuar como insetos em volta da lâmpada, tentando desvendar suas potencialidades", brinca, em alusão à J.B. Schmetterling, luminária criada por Ingo Maurer: a mais completa síntese deste momento de transição.

 

Para além de sua função imediata, fato é que, em Milão 2011, o móvel, em sua dimensão física, mas também emocional, ensaia passos ainda mais largos. E, em direção a regiões até então inexploradas, flerta com a escultura. Dialoga com a moda. Pretende-se eterno, mas biodegradável. "Na verdade, tudo já foi feito. Mas no mundo dos sonhos estamos sempre em busca do novo, procurando por espécies desconhecidas", pontuou Marcel Wanders.

 

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Paraísos artificiais

O desejo de contato com a natureza leva designers a traduzir formas e texturas em seus móveis

 

Sustentabilidade e desejo expresso de estar em contato com a natureza são, já há algumas edições, assuntos em alta na Semana de Design de Milão. E assim prometem continuar por muitas outras. Novidade mesmo, e isso pode ser constatado a cada ano, é a forma como esses temas são tratados.

 

Elevada à condição de parâmetro estético, a representação do mundo natural por meio de técnicas e materiais abertamente sintéticos povoou a imaginação dos designers. Como que recriando um universo particular, resinas reproduzindo estruturas naturais, como plantas e corais, além de falsas pedras e peles fake, pipocaram por todas as coleções. Sem falar nas avançadas - e cada vez mais realistas - técnicas de impressão digital.

 

Saltando aos olhos, a dimensão do móvel se amplia para atingir regiões até então inexploradas. Afinal, no mundo do design, parecem existir sempre novas possibilidades capazes de povoar nosso imaginário e nossa casa.

 

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Móveis fora de série

Entre os lançamentos, objetos que fogem do banal e são imunes a cópias

 

Na trilha de um consumidor exigente, que pensa duas vezes antes de comprar, mas coloca a exclusividade na dianteira de suas decisões, o mercado internacional de design cresce e se sofistica. Do móvel, não se exige mais apenas uma perfeita performance. Mas o compromisso de assumir uma presença definitiva no espaço doméstico. Fazer a diferença.

 

Complexos processos de moldagem. Resinas de última geração. Avançadas técnicas de impressão digital e - última palavra entre os fabricantes antenados - iluminação incorporada ao móvel. Para expressiva parcela do design made in Italy, o céu parece ser o limite. Principalmente, quando o objetivo é projetar o móvel além dos limites do banal e do descartável.

 

Paradoxo realizado, o móvel de design, que de início se pretendia de largo consumo, percorre assim, com evidente entusiasmo, as trilhas do objeto único e exclusivo. Com pretensão de dialogar de igual para igual com a escultura e com a arquitetura. Mas, acima de tudo, cada vez mais imune a cópias.

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