Niemeyer recebe últimas homenagens de Brasília

"Leves como penas pousando no chão." Era assim que Oscar Niemeyer gostava de se referir às colunas do Palácio do Planalto, uma de suas obras-primas projetadas para Brasília. Nesta quinta-feira, a criação e o criador voltaram a se encontrar, quando o caixão com o corpo do arquiteto subiu a rampa do palácio e foi colocado no salão nobre, após ser carregado por oito cadetes da Polícia Militar do Distrito Federal. O gênio recebia sua homenagem final da cidade que ajudou a inventar.

RAFAEL MORAES MOURA E TÂNIA MONTEIRO, Agência Estado

06 Dezembro 2012 | 20h00

Um avião cedido pela Presidência da República transportou 16 pessoas da família e o corpo do arquiteto. Dilma esperou o caixão ao lado da viúva de Niemeyer, Dona Vera - assim que soube da morte do artista, a presidente entrou em contato com a família, prestou condolências e colocou o Palácio do Planalto à disposição para o velório.

A cerimônia foi acompanhada pelos presidentes do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa; do Senado, José Sarney (PMDB-AP); e da Câmara, Marco Maia (PT-RS). Pelo menos uma dúzia de ministros - do chanceler Antonio Patriota ao onipresente Aloizio Mercadante - e o vice-presidente Michel Temer também prestigiaram a homenagem a Oscar Niemeyer.

"O sofrimento das pessoas simples fez com que ele passasse a ser a pessoa que ele é", disse a jornalistas uma emocionada Ana Lúcia, uma das netas de Niemeyer. Qual o legado de Niemeyer? A Catedral de Brasília? O Sambódromo do Rio? "Mais que a obra, acho que os conceitos, as ideias, a solidariedade dele, a preocupação com a justiça social", afirmou.

O arquiteto Paulo Sérgio Niemeyer, por sua vez, disse que vai ser empenhar em levar adiante os projetos inacabados do bisavô.

Ao todo, 44 coroas de flores foram dispostas no salão - de Marisa Letícia e Lula, do governo da Bolívia, de Fidel Castro, da Ambev, do PC do B (uma homenagem ao "grande camarada comunista") e até do Comando da Aeronáutica.

Para o estudante Hudson Oliveira, uma das muitas pessoas que ficaram duas horas na fila debaixo do sol brasiliense até conseguir chegar ao Planalto, Oscar Niemeyer ainda vive. "Brasília é Oscar Niemeyer, é Juscelino Kubitschek. Niemeyer planejou sua arte e quer honra maior do que ser homenageado justamente por ela?", comentou.

Havia de tudo na fila que ziguezagueava na Praça dos Três Poderes: estudantes de arquitetura, estrangeiros de passagem por Brasília, pioneiros da construção da capital, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), moradores e protestantes que denunciaram o "abandono" da cidade pelo poder público.

Discreta, Dilma não abriu a boca para falar a jornalistas sobre Niemeyer em momento algum - nem no velório, nem no evento que o antecedeu, uma cerimônia de anúncio de investimento em portos, também realizada no Planalto. Nas duas ocasiões, no entanto, foram feitos um minuto de silêncio - a Presidência decretou luto de sete dias.

Para o ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, as ligações de Brasília com Oscar Niemeyer são de pai para filho. Quando retorna às lembranças com o mestre das curvas, Roriz se recorda de um dia em especial - quando foi mostrar pra Niemeyer o projeto da Ponte JK.

"Quando mostrei pra ele a Ponte JK, que hoje é um símbolo da cidade, ele passou a vista e não quis olhar. Ele não deu a menor importância. O que ele gosta ele fala, o que ele não gosta ele faz pouco caso", disse. Nesse caso, difícil não dar razão ao arquiteto.

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