Ninguém me quer

É sabido, ao menos por aqueles que enxergam o futebol além da objetividade aborrecida, que os campeonatos têm alma. Cada um deles possui uma característica, um jeitão, um borogodó qualquer que os torna diferentes entre si. A Libertadores, por exemplo, tem jogos disputados com rivalidade tão renhida que pode levar um desavisado a imaginar que está vendo outra modalidade esportiva. Comparar um jogo da Libertadores com um jogo de campeonato estadual é quase como comparar uma partida de futebol americano com uma de rúgbi. Seja pela importância do título, seja pela rivalidade histórica dos países que sempre entra em campo, as disputas da Libertadores estão sempre um tom acima das demais. Marcação dura, faltas violentas, discussões, brigas, rispidez, emoção à flor da pele. A Sul-Americana segue pelo mesmo caminho, ainda que com um casting menos célebre.

Marcos Caetano, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Não me recordo de um Campeonato Carioca disputado em ritmo vertiginoso. As partidas dos campeonatos do Rio são, tradicionalmente, mais arrastadas, com a bola trabalhada incansavelmente de um lado para o outro. É como se estivéssemos vendo times dos anos 60 e 70 em ação. A alma do Cariocão é a de uma quente e nostálgica tarde de domingo.

Já o Campeonato Paulista tem como uma de suas marcas a força dos clubes do interior, sempre temíveis. Não é incomum vermos esses times liderando a classificação, sendo que alguns já chegaram a dar a volta olímpica. Nos clássicos paulistas, predomina a imprevisibilidade. Muitas vezes - mais do que seria razoável - o rival em pior fase atropela o favoritismo do outro. Isso sem falar nos campeões, que na maioria das vezes não são os clubes de melhor elenco ou aqueles que farão a melhor campanha no Campeonato Brasileiro.

Eu poderia falar de vários outros campeonatos com alma. A Copa do Mundo tem um quê de fervor religioso, onda há mais respeito do que propriamente rixa entre os adversários. A Champions League é cercada de solenidade. Algo próximo da do Mundial, só que sem a mesma contrição. Campeonatos como o Italiano e o Brasileiro são tours de force: verdadeiras epopéias nas quais o campeão é também o time mais resistente.

Resgatei essa minha teoria apenas para sintetizar a alma do Brasileirão de 2009, que poderia ser alcunhado de "O campeonato que ninguém quis ganhar". O Inter, que parecia a barbada da temporada, ficou pelo caminho (para ressurgir um pouco na reta final). Depois foi o Atlético-MG, que liderou, liderou... e despencou. Aí chegamos ao Palmeiras, que, ao que tudo indica, desperdiçará um título que, se conquistado, seria o mais fácil da história. Basta lembrar que, mesmo com aproveitamento ridículo no segundo turno, continua com chances. Na rodada passada, diante do Goiás, no Maracanã, o Flamengo teve tudo para gravar seu nome na taça, mas também tropeçou. Parece que a taça está quente e ninguém quer tê-la nas mãos.

Esse é o campeonato que ninguém quis ganhar, mas, por inevitabilidade matemática, alguém terá de se apoderar dele. O São Paulo, mesmo tendo perdido na última rodada, depende de si e terá pela frente adversários desinteressados (salvo pela famosa mala branca). Por conta disso, poderia ser apontado como franco favorito. Só que, na loucura que é a competição deste ano, ser apontado como favorito parece ser a maior garantia de fracasso. Pensando assim, é melhor não falar nada. Em duas rodadas o campeonato apontará o vencedor. E que fique claro: o campeonato é que terá corrido atrás de um time campeão - em vez de um time campeão correr atrás dele.

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