No Brasil, dólar futuro dita câmbio

Estudo da PUC-Rio mostra que volume de transações futuras é 5 vezes maior que as do mercado à vista

Renato Andrade, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

As discussões sobre a taxa de câmbio e possíveis medidas a serem tomadas pelo governo para controlar a valorização do real têm deixado de lado uma peculiaridade. Enquanto no resto do mundo as operações de compra e venda de moeda no chamado mercado à vista são determinantes para a formação da taxa cambial, aqui é exatamente o contrário. "Nos mercados de câmbio no Brasil é o rabo que balança o cachorro", afirmam os economistas André Ventura e Márcio Garcia, da PUC do Rio.

Com base numa análise inédita sobre todas as propostas de compra, venda e negócios fechados nos pregões de dólar futuro e do mercado interbancário de dólar à vista entre fevereiro de 2006 e maio de 2007, os economistas chegaram à conclusão de que o volume de dinheiro circulando no mercado futuro é cinco vezes maior do que no mercado à vista, o que provoca uma situação atípica. As operações no mercado futuro acabam influenciando, de maneira mais decisiva, a cotação da moeda.

De acordo com o levantamento, o volume negociado no mercado à vista de dólar durante os 18 meses analisados atingiu US$650 bilhões. Já no mercado futuro, considerando apenas os contratos com vencimento mais curto, de 30 dias, o giro foi de US$3,5 trilhões.

"Isso não se verifica nos principais mercados cambiais do mundo, principalmente nos países do G-7 (grupo das sete economias mais ricas), onde o volume negociado no mercado à vista é amplamente superior ao do mercado futuro", ponderam os economistas.

O mercado de dólar futuro no Brasil é o segundo maior mercado de derivativos de câmbio transacionados em pregão do mundo, segundo dados de 2007 do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), instituição que serve como uma espécie de banco central dos bancos centrais.

Ao mesmo tempo, o mercado à vista de dólar/real corresponde a menos de 1% do volume total de câmbio à vista negociado no planeta.

LEI CAMBIAL

Uma das razões que explicam essa diferença no Brasil é a legislação em vigor. As leis brasileiras para o mercado cambial impossibilitam o livre acesso à moeda estrangeira à vista. Somente bancos com carteira de câmbio podem atuar no chamado mercado spot. Já no mercado futuro, as regras são menos rígidas, o que garante a presença não só de bancos como investidores institucionais nacionais e estrangeiros, empresas não-financeiras, distribuidoras de títulos e valores mobiliários (DTVMs) e pessoas físicas.

Segundo Vieira e Garcia, as limitações fazem com que diversas operações típicas do mercado à vista sejam transferidas para o mercado futuro. No período analisado, os economistas registraram mais de sete milhões de operações no mercado futuro, ante 2,1 milhões no mercado à vista.

"A legislação cambial faz o mercado futuro de câmbio mais líquido que o mercado à vista e assim o líder no processo de formação da cotação", afirmam os economistas.

Mesmo considerando a possibilidade de alterações nas regras vigentes, Vieira e Garcia ponderam que isso não representaria, necessariamente, uma mudança na forma como a taxa de câmbio é formada. "Mesmo cessando as causas, não há garantia que a configuração original volte a prevalecer", afirmam. "Os agentes financeiros hoje já estão acostumados a operar da forma como operam e não a alterariam sem que auferissem ganhos privados para fazê-lo", concluem.

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