''No Brasil, o melhor crédito que existe para o jovem ainda é o crédito familiar''

O processo de transição para a vida adulta em uma cidade como São Paulo foi alvo de investigação da socióloga Melissa Pimenta em sua tese de doutorado. A mudança ocorre, diz ela, quando há a realização de um projeto de vida, que varia entre as classes sociais. Os mais ricos buscam a escolarização, enquanto nas camadas mais populares as mulheres procuram a maternidade e os homens, o papel de provedor. A pesquisa qualitativa foi feita por meio de entrevistas com participantes entre 25 e 30 anos.

, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2010 | 00h00

O que é ser jovem, adulto e adolescente hoje?

Ser jovem é supervalorizado, pois significa que tudo ainda é possível e eu posso mudar se não der certo. Já a adolescência é vista como uma idade problemática, da qual você tem de se livrar logo. Ser adulto é a realização de um projeto, de um ideal que varia de acordo com o segmento pesquisado.

Quais as principais diferenças?

Nas classes de maior poder aquisitivo há um projeto de escolarização muito forte. A família investe muito em educação e espera que o jovem faça faculdade e uma transição bem-sucedida no mundo profissional. Nas classes populares se vê um modelo familiar mais tradicional. Para a menina, a transição ocorre quando ela se torna mãe. Nem precisa estar casada ou ter um emprego. Para o rapaz, a entrada no mundo do trabalho é mais significativa. Ele se tornar provedor da família é um papel muito importante.

Entre os pesquisados havia jovens morando com os pais?

Sim, muitos. Quando se compara com estudos europeus, vemos que isso tem relação com a forma como se dão as relações familiares no Brasil. É semelhante à de países latinos e de tradição católica, como Portugal, Espanha e Itália. Nos países escandinavos, onde há um estado de bem-estar social muito elevado, a família encara a relação com o jovem de uma maneira diferente. A partir dos 18 anos, cessam as obrigações familiares e o jovem tem de se virar. Ele sai de casa e o próprio Estado provê crédito, moradia, estudo. No Brasil, o jovem conta com muito pouco apoio do Estado. Para sua autonomia, o melhor crédito que existe ainda é o crédito familiar. É irrestrito, não precisa de comprovação de renda. Mas há contrapartidas.

Como assim?

Principalmente nas classes populares, espera-se uma retribuição, muitas vezes financeira, para esse esforço que o pai teve. No caso das famílias mais abastadas, não necessariamente há essa expectativa. A família se vê na obrigação de garantir uma transição bem-sucedida, para que o filho saia de casa no mesmo nível social. Até porque hoje em dia está todo mundo mais consumista. O nível de exigência do jovem hoje é muito maior.

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