No país das 5 raças (ou seriam 130?)

Brasileiros consideram seu espectro racial um arco-íris em que cada um escolhe a cor à qual pertencer, explica antropóloga a americano

Robert Darnton, O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2010 | 12h37

Estive no Brasil pela primeira vez em 1989, quando a hiperinflação tinha provocado a virtual paralisação da economia, as favelas ferviam com os tiroteios e Lula, um herói do movimento sindical, mas ainda inseguro de si enquanto político, enfrentava sua primeira campanha para a Presidência.

 

A viagem causou fascínio e espanto. Em minha segunda visita, alguns anos mais tarde, conheci Lilia Moritz Schwarcz, respeitada antropóloga do País, e seu marido, Luiz Schwarcz. Eles me proporcionaram um dia tão repleto de brasilidade que ficou marcado em minha memória como uma das experiências mais felizes da minha vida: de manhã, caminhada na companhia deles e de seus filhos pelo principal parque de São Paulo, onde famílias de todos os tons de pele participavam de piqueniques e brincavam ao sol. O almoço foi uma amostra de especialidades brasileiras jamais imaginadas pela minha filosofia culinária (mas nada de orelha ou rabo de porco, pois não era dia de feijoada). Uma partida internacional de futebol (o Brasil venceu a Venezuela, e as arquibancadas explodiram de alegria). Depois, incontáveis caipirinhas e um show de Caetano Veloso no auge de seu lirismo e provocação política.

 

Desde então nunca deixei de admirar a energia e a originalidade da cultura brasileira. Mas não finjo compreendê-la, principalmente porque ela está em eterna mutação e eu não falo português. Posso apenas fazer perguntas em inglês e me esforçar para entender as respostas. Será que o mito do Brasil como "gigante adormecido" se transformou numa profecia que leva ao próprio cumprimento? "Ele despertou", é o que dizem hoje. A economia prospera, os serviços de saúde estão se ampliando, a alfabetização avança. Há também profecias nefastas, porque o histórico econômico brasileiro se assemelha a uma sucessão de ciclos de prosperidade e falência imposta por séculos de escravidão e pauperização.

 

Ainda assim, o presidente Lula está chegando ao fim de um segundo e último mandato presidencial. Independentemente do que pensem os brasileiros sobre sua política externa, que inclui o cultivo de relações amigáveis com o Irã (a maioria da população não demonstra interesse no assunto), em geral eles concordam que sua administração da economia foi competente e reconhecem os esforços feitos para melhorar a situação dos pobres. O mandato de Lula chegará ao fim no início do próximo ano, e ele declarou seu apoio à candidata Dilma Rousseff, sua ex-ministra-chefe da Casa Civil, nas eleições de outubro. As chances de vitória dela são muito grandes, ajudadas pela popularidade do próprio Lula. O primeiro debate da nova campanha presidencial, em 5 de agosto, foi um acontecimento cheio de cerimônia e dignidade - indicação, segundo me disseram, de que a democracia vai bem e os dias dos golpes militares são coisa do passado. Mas hoje estrangeiros fazem perguntas sobre a personalidade dessa grande potência emergente, o Brasil. Encaminhei a Lilia algumas das mais frequentes.

 

 

ROBERT DARNTON A ascensão do Brasil ao grupo dos principais países do mundo leva a perguntas a respeito de sua identidade nacional, e algumas delas são hostis, como a que você disse ter ouvido em sua última visita aos EUA: como os brasileiros podem viver em um país dominado pelas favelas e pela violência? Qual é sua resposta?

 

LILIA MORITZ SCHWARCZ É estranho que haja uma nova imagem do Brasil elaborada pelo exterior. Estávamos habituados a ser vistos como "exóticos", o país da capoeira, do candomblé, do carnaval e das mulatas. Agora ainda somos vistos como exóticos, mas esse exotismo tem um novo ingrediente: a violência, e até uma nova estética da violência, presente sobretudo na forma com a qual o Brasil é retratado em filmes contemporâneos como Cidade de Deus. O fascínio pelas favelas verificado entre muitas pessoas fora do Brasil é ambíguo. Por um lado, as favelas são vistas como comunidades violentas, sujeitas a líderes violentos que escapam da autoridade do Estado. Por outro lado, elas são apenas "diferentes" - cenas de uma cultura externa à cultura dominante, com sua maneira própria de festejar, dançar, jogar futebol. Não temos favelas em toda parte, mas é isso que os estrangeiros gostam de pensar. Desenvolvemos um novo tipo de turismo, que proporciona um "passeio pela favela". Tudo é falso, mas os turistas apreciam a ilusão de provar um mundo diferente. E quanto a você, Bob? Tem medo de caminhar em certas partes de Nova York? Será que o Harlem é uma espécie de favela?

 

DARNTON Sim. Como muitos nova-iorquinos, tenho meus momentos de medo quando desço do metrô na estação errada ou quando me afasto muito da Rua 125. Mas, quando visito o Brasil, gosto de pensar que estou num país que está lidando bem com seu histórico de racismo. Será que o Brasil poderia evoluir para uma sociedade mestiça de múltiplas nuances, como aquela imaginada pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre?

 

LILIA Permita-me perguntar primeiro, Bob: você acha que Obama é um "presidente negro"? Faço essa pergunta porque, no Brasil, a definição da cor da pele depende do contexto, do momento e do temperamento da pessoa que faz a pergunta e também daquela que a responde.

 

DARNTON Pergunte a qualquer americano, pergunte ao próprio Obama, e a resposta será invariavelmente a mesma: ele é, sim, um presidente negro. Nos EUA, apesar das muitas variações de tom de pele, não possuímos uma noção de raça com múltiplas nuances. A pessoa é negra ou branca, ou é definida por algum adjetivo que não esteja diretamente associado à cor, como chinesa ou hispânica.

 

LILIA No Brasil, a autodescrição da pessoa define o que ela de fato é. Oficialmente, temos cinco cores diferentes - negro, branco, amarelo, indígena e pardo (o equivalente a diferentes tons de "marrom"), mas, na realidade, como demonstraram as pesquisas, temos mais de 130 cores de pele. Os brasileiros gostam de descrever seu espectro de cores como um arco-íris, e também pensamos na cor como uma maneira flexível de se categorizar as pessoas. Faz muitos anos que estudo uma partida de futebol chamada de "Pretos x Brancos" que é organizada na favela paulista de Heliópolis. Em tese, são escolhidos 11 jogadores negros e 11 jogadores brancos para cada time, respectivamente. Mas a cada ano eles mudam de cor como quem troca de camisa - certo ano o jogador escolhe jogar por uma das equipes, e no ano seguinte, opta pela outra, explicando simplesmente, "estou me sentindo mais negro", ou "estou me sentindo mais branco". Além disso, no Brasil, se uma pessoa enriquece, ela se torna mais branca. Conversei recentemente com um dentista em Minas Gerais. Com o envelhecimento, seu cabelo ficou branco, e ele é muito conhecido na cidadezinha em que mora. Começou a fumar charuto, a fazer parte do Rotary Club local e me disse: "Quando eu era negro, minha vida era muito difícil". Assim, podemos ver como ser branco ainda carrega uma simbologia poderosa, mesmo nos tempos atuais. Temos nesse exemplo duas faces da mesma imagem: por um lado, a identidade é flexível; por outro, ser branco pode ser a aspiração máxima de algumas pessoas. Mas existe entre elas um aspecto em comum: a ideia da possibilidade de manipular a própria cor e raça.

 

DARNTON Isso significa que o Brasil esteja desenvolvendo um tipo menos virulento de racismo?

 

LILIA Acho que todos os tipos de racismo são igualmente desprezíveis. Estou apenas dizendo que o tipo brasileiro é diferente. Em 2000, por exemplo, completamos um projeto de pesquisa que consistia em três perguntas aparentemente simples: "Você tem algum tipo de preconceito?" 97% dos participantes responderam negativamente. "Conhece alguém que tenha preconceitos?" 99% responderam afirmativamente. Para aqueles que responderam sim à segunda pergunta, pedimos que fosse descrito o relacionamento mantido com a pessoa considerada racista. Não pedimos nomes, mas as pessoas muitas vezes os forneceram, identificando amigos e parentes. Concluímos que todo brasileiro se considera uma ilha de democracia racial cercada por um oceano de racismo. Mas as coisas estão mudando. Apesar de a ação afirmativa ter começado somente na década de 80, ela é atualmente bastante eficaz, e temos um sistema de cotas e bonificações nas universidades (o sistema beneficia principalmente os alunos pobres que estudaram em escolas públicas e, consequentemente, os negros). Hoje a história da África é uma disciplina obrigatória nas escolas. Estamos começando a compreender a complexidade do preconceito racial, em vez de negar sua existência.

 

DARNTON Imagino então que os estrangeiros não possam tomar o Orfeu Negro como uma medida das atitudes raciais no Brasil. Mas como lidar com outros elementos que fazem parte da noção estereotipada da identidade brasileira? A cultura popular brasileira se resume ao samba e ao futebol?

 

LILIA Essa é a imagem mais comum do nosso país, e na verdade foi, de certa maneira, uma construção artificial criada por Getúlio Vargas, o presidente populista da década de 30. Por assim dizer, ele "nacionalizou" a capoeira, o candomblé, o samba e o futebol. Ele até estabeleceu a feijoada (prato adaptado da culinária dos escravos) como símbolo do Brasil. O branco do arroz, disse ele, representava a população branca. O preto do feijão representava os africanos. O vermelho da pimenta corresponderia aos indígenas. O amarelo da mandioca simbolizava os japoneses e chineses que vieram em grandes números ao País no início do século 20. E a cor das verduras seria a floresta. Poderíamos chamar essa iniciativa de marketing político, mas foi algo muito inteligente, tanto que ainda vemos o Brasil como um país de uma única cultura, apesar de termos muitas subculturas. Será que poderíamos dizer algo parecido a respeito dos Estados Unidos?

 

DARNTON Lá, falamos num grande caldeirão no qual tudo se mistura, mas nem todos acreditam nessa ideia; e, se algo foi preparado nesse caldeirão, certamente não foi a feijoada.

 

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

EM RECENTE PASSAGEM PELO BRASIL COMO CONVIDADO DA FESTA LITERÁRIA DE PARATY, O HISTORIADOR ROBERT DARNTON VISITOU O MUSEU AFROBRASIL E ENTÃO PROPÔS UM DIÁLOGO SOBRE O TEMA RACIAL PARA A ANTROPÓLOGA LILIA SCHWARCZ. ESTA CONVERSA DE AMBOS, INICIADA AO VIVO E FINALIZADA POR EMAIL, FOI ORIGINALMENTE PUBLICADA NO BLOG DO THE NEW YORK REVIEW OF BOOKS. DARNTON HOJE CUIDA DO CONJUNTO DAS BIBLIOTECAS DA UNIVERSIDADE HARVARD. E LILIA VOLTOU DE UM PERÍODO NA UNIVERSIDADE PRINCETON, ONDE ATUOU COMO PROFESSORA VISITANTE.

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