No primeiro dia do ano

São Paulo parecia uma metrópole-fantasma. No fim da tarde do dia 2 de janeiro, telefonei para alguns amigos, eu queria saber o que eles tinham feito no primeiro dia de 2010. Para minha surpresa, alguns trabalharam. Um engenheiro me disse, sem ironia, que aproveitara o silêncio para fazer o cálculo da estrutura de um galpão.

Milton Hatoun, O Estadao de S.Paulo

22 de janeiro de 2010 | 00h00

O maldito arquiteto devia ter projetado um simples galpão e desenhou um disco voador, ele disse.

Fez uma pausa e desabafou: Os arquitetos não aprendem mesmo.

O engenheiro passou o dia calculando estruturas metálicas, mas uma amiga cantora passou a manhã deitada na rede, ouvindo bossa-nova e Pixinguinha; durante a tarde leu Nietzsche e Heráclito, e sonhou com um rio que não podia ser o Tietê nem o Pinheiros, que, na cidade de São Paulo, são caricaturas feias de um rio.

Quando acordei, levei um susto, ela disse. Amanhecia. Não senti a noite do primeiro dia do ano.

E o rio?, perguntei.

Era imenso como o mar, um rio sem margens, perigosíssimo. Acho que um rio assim só existe nos sonhos.

Nem todos ouvem música, leem e sonham. Um amigo fotógrafo captou imagens do primeiro dia do ano em São Paulo.

Fiz um ensaio fotográfico sobre o lixo, ele disse. E também sobre os mendigos e catadores de dejetos. Passei o dia fotografando a cidade de ressaca. Fiz mais de 300 fotos no centro e em alguns bairros. O título do ensaio é Manhã Depois da Festa.

Já o meu amigo Guerra ? um sobrenome que contraria o caráter pacifista da pessoa ? passou o dia enviando mensagens contra os fabricantes de todo tipo de material bélico.

Guerra talvez seja o mais ingênuo dos pacifistas, e isso não é pouco. Não sabe ou não quer saber que as indústrias de armamentos são as mais poderosas do planeta. O lema de Guerra é: "Por um desarmamento universal."

Guerra é um esperançoso. E eu admiro homens esperançosos.

Não é o caso de minha amiga W., que é mais cética e pessimista do que um eleitor latino-americano. W. passou o primeiro dia do ano vendo filmes de guerra.

É incrível como A Batalha de Argel é atual, ela disse, com uma voz seca. Ou seria uma voz de Dry Martine? Isso porque, se bem a conheço, W. adora drinques. Ela viu em casa o filme de Gillo Pontecorvo, e depois viu um documentário sobre as bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki.

W. não conhece Guerra. Melhor assim: eu perderia um desses amigos se eles se encontrassem. Talvez perdesse ambos: a cética e o esperançoso.

Tomei coragem e telefonei para a minha dentista. Não a encontrei em casa, e sim no consultório.

Me liga daqui a meia hora, ela disse, pensando que eu estava com dor de dente. Liguei e conversei brevemente com uma dentista exausta: quatro pacientes estavam desesperados de tanta dor. O primeiro tratamento de canal havia começado às 10 da manhã do dia anterior.

Foi o réveillon dos canais inflamados, ela disse. Ontem trabalhei o dia todo. Você também está sentindo dor?

Não, respondi. Só queria saber o que você tinha feito no primeiro dia do ano.

Então já sabe. Feliz 2010.

Desligou de um modo precipitado. Imagino que tenha voltado a desobstruir o penúltimo canal da tarde.

Mais sereno, talvez mais melancólico, foi o dia de um amigo artista.

Ontem acordei às 7 e comecei a desenhar o rosto de minha mãe, ele disse. Senti saudade dela e fiz várias aquarelas de um rosto que não vejo há mais de quatro anos. Desenhei de memória, sem olhar para fotografias.

Lembrei de minha mãe: foi o primeiro ano-novo em que acordei órfão. Sem ter talento para a arte, não desenhei nada, e por algum tempo recordei um rosto que não vejo há 375 dias.

Lembrei de minha amiga V., com quem não falava havia meses.

Você me ligou no dia certo, ela disse, com uma voz animada.

Por quê?

Ontem encontrei por acaso meu primeiro namorado. Nós dois estávamos casados e nos separamos no ano retrasado. Adivinha...

Nem é preciso, eu disse. Imagino que ontem vocês nem saíram de casa.

Não saímos da cama. Ainda estamos deitados.

V. foi a única que me fez uma pergunta indiscreta:

E você, o que fez hoje?

Passei o dia telefonando aos amigos para saber o que eles tinham feito ontem.

E por que você fez isso?, perguntou V., deitada ao lado de seu primeiro amor.

Porque precisava de assunto para escrever uma crônica.

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