No quintal de Mobutu

MEMÓRIA

Rui Nogueira, DE BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

"Vamos lá ver esses pretos se arrebentarem". O velho, pai e colono português daqueles tempos do regime salazarista, leu n" A Província de Angola que Muhammad Ali e George Foreman se enfrentariam no vizinho Zaire e decidiu que atravessaria a fronteira para ver "a luta do século". Numa mistura de convite e ordem, sentenciou: "Vais comigo".

Local de partida: a cidade de Carmona, hoje chamada de Uíge, no norte de Angola, a uns 500 km de pouco asfalto e muita poeira de Kinshasa. O Zaire não fazia parte das estrelas do almanaque marxista e era governado pelo sanguinário Mobutu Sesse Seko. Que diabos, então, o herói negro Ali fazia naquela pocilga que era a capital zairense?

Lembro que alguém implicou com o fato de eu ser um "miúdo" querendo ver uma luta de boxe, mas sei que entrei no estádio depois de uma conversa de pé de ouvido entre o pai e um segurança armado até os dentes. Como o velho sempre falava do segredo das pernas bailarinas de Ali, durante a luta prestei mais atenção no balé mortal das canelas do que nos sopapos trocados com Foreman.

A outra lembrança impagável: fui dormir no hotel para ver a luta, em vez de ir ver a luta para depois dormir. O dia estava amanhecendo quando Ali jogou Foreman na lona porque as emissoras dos EUA exigiram um espetáculo na madrugada de Kinshasa.

O combate ensopado de suor, falação e provocação ficou imortalizado no documentário Quando Éramos Reis (1996), mas Ali, o esperto organizador da luta, Don King, e Kinshasa, à luz da peneira do tempo, protagonizaram uma luta épica e, ao mesmo tempo, uma ópera bufa ideológica. O bálsamo da raça negra, nos EUA, desembarcou em Kinshasa dando vivas a Mobutu e glórias ao Zaire. Foi duro ouvi-lo falar do "orgulho zairense do povo negro espalhado pelo mundo". O país era e é uma chaga de corrupção e pobreza ímpares. Em meio à penca africana de ditaduras marxistas alinhadas com a antiga União Soviética (URSS), os EUA haviam arrumado a sua ditadura pró-Ocidental, oferecida como palco de uma luta de boxe inesquecível e de uma palhaçada política inominável. Ali, graças a Alá, era maior que a fantochada terceiro mundista de quinta categoria armada em Kinshasa.

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