No rastro das raias gigantes do Brasil

Pesquisadores usam transmissores via satélite para descobrir a rota migratória desses misteriosos peixes que passam pela Laje de Santos

HERTON ESCOBAR, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h08

Todos os anos, no inverno do Hemisfério Sul, raias-mantas-gigantes desfilam pelo Parque Estadual Marinho da Laje de Santos, no litoral sul de São Paulo. Enormes, belas, inofensivas e silenciosas. Elas surgem do nada e desaparecem no nada, sem aviso, batendo suas "asas" cartilaginosas (na verdade, nadadeiras peitorais superdesenvolvidas) graciosamente pelas águas às vezes azuis, às vezes verdes, da unidade. Poucos são os mergulhadores que têm a sorte de ver uma passando. Ninguém sabe de onde elas vêm ou para onde vão. Nem o que vêm fazer aqui. Mas isso está começando a mudar.

Pesquisadores do Instituto Laje Viva (ILV), organização não governamental que trabalha em parceria com a Fundação Florestal na conservação do parque, estão "equipando" mantas com transmissores de dados via satélite, que, se tudo fluir bem, poderão dar pistas importantes sobre o comportamento e as rotas migratórias desses animais.

Os aparelhos, com o formato de um pequeno microfone, são presos às costas das mantas por mergulhadores, com o auxílio de uma lança (sem machucar o animal). Assim como os peixes rêmoras que viajam agarrados ao seu corpo, o transmissor - ou "tag", como é chamado em inglês - vai com a manta onde quer que ela for, registrando minuto a minuto a temperatura e a profundidade da água por onde ela passa.

Após um período pré-programado, que pode chegar a 180 dias (dependendo da bateria), o transmissor se solta automaticamente, flutua até a superfície e transmite os dados via satélite para os pesquisadores. Duas mantas foram marcadas em 2010 e mais três em 2012.

O Estado mergulhou com os pesquisadores e acompanhou a colocação do quinto transmissor (Tag 5), em 14 de julho. Era um dia ensolarado e de mar calmo, sem vento. Fizemos um primeiro mergulho de quase 40 minutos, mas nada de mantas. "É sorte mesmo, não tem como prever. Você está na água e, de repente, elas aparecem", relata Guilherme Kodja, diretor do projeto Mantas do Brasil, patrocinado pela Petrobrás e executado pelo ILV.

De volta ao barco, enquanto fazíamos nosso "intervalo de superfície", uma mergulhadora de um barco vizinho gritou e fez o sinal da manta, batendo os braços no ar de maneira ondulada, como o animal faz com suas "asas" debaixo d'água. Em menos de cinco minutos, estávamos reequipados e debaixo d'água novamente.

Não demorou muito, deparamo-nos com uma manta macho de quase 4 metros de envergadura. Um jovem adulto que nunca copulou, a julgar pelas bordas ainda negras de seus órgãos reprodutores, chamados claspers - depois da primeira cópula, elas se tornam brancas. Devia pesar cerca de 1 tonelada.

Ele viajava sozinho, a não ser por duas rêmoras enormes agarradas à sua cabeça, e era surpreendentemente amigável. Durante quase meia hora, Buddy (como foi apelidado mais tarde) desfilou tranquilamente em frente aos mergulhadores e nem se incomodou quando Kodja lhe deu uma "espetada" com a lança, fincando o tag em seu dorso. Na sequência, o pesquisador ainda se deu ao luxo de filmar o animal em detalhe por vários minutos, para fazer um registro visual do espécime e se certificar de que o transmissor ficou devidamente ancorado em sua pele grossa.

Interação. Kodja só voltou à superfície quando seu tanque de ar já estava quase vazio. "O mais incrível desses bichos é a interação", relata o pesquisador. "É o único animal marinho que te olha no olho de verdade", completa Eric Comin, biólogo marinho do ILV. "Parece até que ele te reconhece."

Fizemos um terceiro mergulho, no outro lado da Laje, mas teria sido muita sorte encontrar outra manta. Apesar de ser o local onde a espécie é avistada com mais regularidade no País, mesmo ali elas são raras. O auge foi em 2007:17 mantas. Em 2011, foram vistas apenas três. Em 2009, só uma.

Neste ano, até agora, oito. Desde o nosso mergulho, Kodja foi mais cinco vezes à Laje, na esperança de colocar o sexto e último tag do projeto, mas não encontrou nenhuma raia. Não há como prever quando os três transmissores que estão na água se soltarão das mantas. Quase sempre eles se soltam antes do tempo programado, por conta do arrasto das correntes e outros fatores.

O Tag 1, colocado em uma manta macho em julho de 2010, ficou preso ao animal por 42 dias. Ressurgiu 170 quilômetros a leste da Laje, no limite da plataforma continental (a borda submersa do continente). Os dados revelam que a manta passou metade do tempo em águas rasas, até 10 metros de profundidade, e 38% do tempo entre 50 e 150 metros. Chegou a fazer um mergulho superprofundo, de 776 metros, onde a temperatura da água era de 6 °C. "A gente achava que as mantas ficavam sempre no raso, que é onde a gente as vê. Mas não", surpreende-se Kodja.

Os dados do Tag 2 são ainda mais enigmáticos - e preocupantes. O transmissor ficou submerso por apenas seis dias. Depois, transmitiu continuamente por dez dias da superfície, seguindo o norte ao longo da costa até o litoral carioca, em velocidade constante, num trajeto típico de um barco de pesca. A última transmissão ocorreu em terra, de uma comunidade pesqueira de Sepetiba, na zona oeste do Rio. A suspeita é que a raia foi pescada com o transmissor ou que o tag se soltou prematuramente e foi recolhido por pescadores.

Agora é torcer para que os Tags 3, 4 e 5 fiquem submersos e presos às suas mantas pelo maior tempo possível. "Não sabemos de onde elas vêm, mas se soubermos para onde vão, já será muita coisa", diz Kodja. "Para uma espécie sobre a qual não sabemos praticamente nada, qualquer informação é um ganho importante."

Para se ter uma ideia do nível de desconhecimento, acreditava-se até há pouco tempo que todas as raias-mantas eram de uma mesma espécie. Só em 2009, uma jovem bióloga americana chamada Andrea Marshall mostrou que havia, na verdade, duas: uma maior, oceânica, de hábitos migratórios (Manta birostris); e outra menor, recifal, residente de áreas costeiras (Manta alfredi). Ambas estão ameaçadas de extinção.

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