No Senado, Mantega é vigiado por Dilma e blindado por base

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi preservado por governistas e até pela oposição durante audiência pública no Senado. As irregularidades na Casa da Moeda e as turbulências no Banco do Brasil e na Previ limitaram-se apenas a questionamentos pontuais.

TIAGO PARIZ, REUTERS

13 Março 2012 | 19h45

Apesar disso, a presidente Dilma Rousseff manteve um olhar atento aos desdobramentos da reunião para saber o conteúdo das declarações do ministro e se ele estava sendo alvo da recente insatisfação da base aliada.

A audiência na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) foi convocada há cerca de um mês quando o ministro estava mergulhado em turbulências políticas nas duas instituições, além de denúncias de irregularidades na Casa da Moeda. Mas Mantega acabou por ser questionado pelo líder do PSDB, Alvaro Dias (PR), com perguntas mais abrangentes e apenas de maneira passageira por Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).

O único momento mais caloroso do debate ocorreu já na reta final da audiência pública quando Mantega voltou a ser questionado sobre as denúncias de irregularidades na Casa da Moeda pelo senador Mario Couto (PSDB-PA).

O tucano insistiu no questionamento sobre a relação entre Mantega e o ex-presidente do órgão Luiz Felipe Denucci, o que levou o ministro a se irritar com o senador. Mantega pediu, então, a intervenção do presidente da CAE, Delcídio Amaral (PT-MS), que garantisse sua palavra. E só, então, o debate retomou o curso normal.

Antes de Mario Couto, o debate havia sido bem morno por parte da oposição. O presidente do DEM, José Agripino Maia (RN), usou o tempo para discursar sobre carga tributária e perda de competitividade da indústria, e não fez menção às denúncias de irregularidades.

Enquanto isso, os governistas centraram o debate nas questões econômicas, blindando o ministro da Fazenda ao não tocar no tema político, apesar do momento de insatisfação na base aliada do governo.

A presidente Dilma Rousseff acompanhou em detalhes o andamento da audiência pública de Mantega. Ela foi informada periodicamente sobre o recado econômico que o auxiliar estava passando para os senadores. Mas ela estava sobretudo interessada em saber sobre o desempenho da base aliada no questionamento ao ministro.

Os relatos foram repassados pelo porta-voz da Presidência, Thomas Traumann, que acompanhou parte da sessão.

A presidente vive um momento tenso generalizado por toda a base. As cobranças são por maior participação no governo, melhora no relacionamento com o Palácio do Planalto e liberação de emendas parlamentares.

SEM TENSÃO

Também antes do discurso de Mario Couto, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) usou o tempo de introdução de pergunta para tripudiar da baixa intensidade das perguntas dos opositores.

"Está vendo, ministro, o senhor veio, discutiu com tanta tranquilidade as questões do Banco do Brasil e da Casa da Moeda. A oposição tem que discutir as grandes situações, a pressão sobre indústria, as turbulências na economia global. Me impressiona a oposição não fazer esse debate", afirmou.

Com o tema político blindado, Mantega usou as quase quatro horas para despejar dados sobre crescimento da economia, guerra cambial, e medidas de estímulo. Sobre BB, Previ e Casa da Moeda, foram cerca de 14 minutos.

ENQUADRADOS

No breve momento que Mantega abordou os temas não fugiu às perguntas e respondeu de maneira detalhada ao líder do PSDB. Ele disse na audiência que enquadrou os comandos do Banco do Brasil e da Previ para acabar com "fofocas" sobre uma disputa de poder nas duas instituições.

Na sessão da CAE, Mantega voltou a classificar a disputa no banco e no fundo de pensão como uma "tempestade num copo d'água".

"Apareceram fofocas, parecia que tinha disputa de cargos e chamei todo mundo (para conversar)", afirmou. "Isso causou uma certa perturbação e decidi enquadrá-los todos."

"Estão fazendo uma tempestade num copo d'água", disse Mantega. "São duas instituições sólidas e as equipes estão tendo um desempenho excelente, são consideradas muito eficientes."

O ministro da Fazenda citou, como exemplo de boa performance, o lucro do BB de 12,1 bilhões de reais no ano passado e o fato de a Previ não cobrar contribuição de seus associados. E aproveitou para alfinetar a oposição.

"Não vamos esquecer que no passado (o BB) deu prejuízos bilionários que o governo teve de cobrir, hoje é diferente. Isso mudou", afirmou o ministro da Fazenda.

Sobre as denúncias da Casa da Moeda, Mantega voltou a afirmar que não agiu antes porque nenhuma denúncia contra Luiz Felipe Denucci, então presidente do órgão, fora formalizada.

Ao responder Alvaro Dias, Mantega disse que não demitiu ninguém da cúpula de BB e Previ por não ter sido detectado quem era o responsável pelas "fofocas" e que a disputa de cargos não existe mais. "Não se detectou o responsável e se tivesse detectado teriam sido feitas (as demissões)", afirmou.

Apesar de classificada por Mantega de fofoca e tempestade num copo d'água, a disputa de cargos envolvendo o presidente do BB, Aldemir Bendine, e da Previ, Ricardo Flores, ameaçou causar uma certa paralisia nas instituições, conforme mostrou a Reuters.

Dias elogiou as respostas do ministro, mas ressaltou que vai acompanhar as investigações tocadas pelo governo. "Ele deu respostas pontuais e não fugiu dos temas", afirmou. "Agora, vamos acompanhar as investigações do governo e vamos continuar cobrando explicações cabais e definitivas."

Mas o tom amigável da audiência foi resumido pelo presidente da CAE. Delcídio Amaral elogiou a atuação de Mantega dizendo que ele orgulha o governo. "Foi uma das melhores audiências que fizemos aqui. O senhor foi muito claro e didático. Parabéns", afirmou o petista.

Mais conteúdo sobre:
MACRO MANTEGA BB ATUA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.