No susto

Ola Billmont mostra a polêmica street photography ao retratar estranhos na rua sem permissão

Christian Carvalho Cruz,

18 de janeiro de 2014 | 16h00

Digamos que o fotógrafo sueco Ola Billmont, de 52 anos, tem um jeito controverso de abordar estranhos na rua: jogando-lhes um flash na cara. De supetão. Billmont pratica a chamada street photography, fotografia de rua. Consiste em perambular por aglomerados urbanos retratando desconhecidos sem pedir licença. Os movimentos são rápidos. O fotógrafo, às vezes, nem olha através do visor da câmera. Dispara como dá, capturando cenas insólitas e, vá lá, até que divertidas. É diferente do que fazia Cartier-Bresson, porque aqui há certo dar de ombros à composição equilibrada, à intimidade, ao lirismo. É mais a vida como ela é acontecendo aqui e agora. Só não agrada a todo mundo. Grosseria para alguns, para Billmont é o melhor jeito de registrar as diferenças que torna homens e mulheres indivíduos.

Por que fotografar estranhos na rua?

É simplesmente o que me interessa: pessoas. Gosto de perceber nossas diferenças como seres humanos. E posso ver e sentir essa imensa variedade numa única tira de negativos, pois fotografo com filme. E também tem o lance de olhar para mim mesmo diante dessas diferenças. Eu estou no rosto daquelas pessoas. Ou pelo menos meu olhar está.

Bruce Gilden é o papa desse estilo de fotografia. Foi uma inspiração para você?

Não exatamente, embora eu goste do trabalho dele. Sou extrovertido e não tenho medo de estar perto dos outros. Fazer esse tipo de fotografia, pra mim, soou como uma evolução natural. Era pra onde eu deveria seguir. O ponto em comum com o Gilden é o uso do flash. Comecei a usá-lo porque fotografando com filme você não tem tantas possibilidades, como nas câmeras digitais, para disparar com pouca luz. E na Suécia é escuro uma looooonga parte do ano.

Há quem considere esse tipo de abordagem invasiva, desrespeitosa.

Garanto que a maior parte dos fotografados não reage mal ou nem sequer percebe que foi fotografada. Alguns riem, outros me perguntam: "Ei, o que você vai fazer com minha foto?". Por isso eu sempre carrego um álbum com fotografias impressas para mostrar o resultado do meu trabalho. Quando eu explico, fica tudo bem.

Mas faria diferença se pedisse ‘com licença, madame, posso fazer um retrato seu?

Oh, claro que sim! Retratos posados e retratos sinceros (que é como eu os chamo) são coisas diferentes dentro do gênero retrato. Dois lados da mesma moeda. Sabe aquelas diferenças entre seres humanos de que te falei? Eu espero conseguir capturá-las retratando as pessoas da maneira como as encontro, não pedindo para posarem. A pose pode aniquilar as diferenças.

Você acha que deve haver um limite nesse jeito de fotografar ou vale tudo?

Eu não fotografo sem-teto, por exemplo. Cabe a cada um fazer suas escolhas. Minha escolha é pela boa fotografia de rua.

O que é boa fotografia de rua? E ruim?

Independentemente do estilo, uma boa fotografia é uma fotografia bem composta. Mas quem se dedica à fotografia de rua precisa de intuição e capacidade de planejar e executar a foto em frações de segundos, antes que seja tarde demais. Fotografia de rua ruim é quando não há nada nela que gere sentimento ou reflexão.

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