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Nobel sem paz

O que Obama dirá aos exaustos americanos para convecê-los a entrar em outra guerra?

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2013 | 19h24

Quem assistiu aos debates diários na TV a cabo e no rádio, nos Estados Unidos, desde o final de agosto, pôde observar mais do que a evidente hesitação do presidente Barack Obama sobre como reagir ao ataque com armas químicas na Síria.

O tom dos debates, em que predominavam o "quando e como" será o ataque, passou à perplexidade com a guinada de Obama ao decidir consultar o Congresso. E, a partir de então, a discussão, como acontecera uma semana antes na Grã-Bretanha, passou a revelar com mais intensidade a dimensão da versão atualizada da síndrome do Vietnã na psique americana. A síndrome do Vietnã, a aversão à guerra resultante da derrota na Ásia, dada como curada por George Bush pai na breve invasão para expulsar os iraquianos do Kuwait em 1991, reapareceu como a síndrome do Iraque, ocupado por George Bush filho em 2003, a um custo de mais de US$ 1 trilhão, quase 4.500 vidas de soldados americanos e, no mínimo, 100 mil iraquianos.

Os americanos não estão prestando atenção à lenta descida do Iraque para o caos da violência sectária que já matou mais de 5 mil só este ano. Mas a invasão de 2003, sob falso pretexto, somada à mais longa guerra da história americana - a ocupação do Afeganistão, que matou um número menor de militares, mas quando terminar, em 2014, ameaça produzir outro barril de pólvora extremista -, são o elefante presente a qualquer mesa de discussão sobre a Síria.

Mais uma vez, como aconteceu em 2003, vimos boa parte da mídia americana tratando o ataque iminente, vazado pelo governo que mais criminalizou vazamentos, como um fato consumado. Ao contrário de uma década atrás, a mídia foi rudemente despertada pelo vigor da oposição pública a mais uma aventura militar.

Senadores e deputados que estavam de férias reagiram ao "efeito YouTube", a propagação viral das imagens de atrocidades das vítimas sírias do gás sarin, com indignação e considerações sobre a ameaça ao mundo civilizado. Era como se tivessem acabado de descobrir, com 100 mil vítimas de atraso, que Bashar Assad está assassinando civis. Mas bastou Obama voltar atrás e pedir aprovação do Congresso para provocar uma transformação na indignação dos ditos parlamentares. A diferença: seus constituintes entupiram as linhas telefônicas do Capitólio com o recado: votem "não". Em debates públicos aqui chamados de town halls, veteranos de guerra condecorados como o senador John McCain foram escorraçados por eleitores que gritavam: "Por que vocês não nos ouvem?".

Com a anêmica recuperação econômica, um desemprego que só não é oficialmente mais alto porque mais de 6 milhões de americanos desistiram de procurar emprego, Obama sofre de perda de credibilidade não só pela maneira atabalhoada como tratou a Síria, desde o começo, com palavras - "Assad deve ir embora", "armas químicas são linha vermelha" - e sem plano de ação.

Ainda que o Partido Republicano seja o grande responsável pela paralisia da agenda doméstica que teria permitido ao presidente facilitar estímulos à economia, o que Obama pode dizer aos exaustos americanos, quando discursar pedindo apoio ao ataque, nesta terça-feira, para convencê-los da sensatez da decisão que tomou há duas semanas? Prometer que vai ser uma ação contida e breve, quando o Pentágono já revelou via vazamentos que os planos de ataque foram revisados para cenários mais amplos? Prometer que nenhum soldado americano vai pisar em território sírio quando não se pode controlar um dos maiores arsenais de armas químicas do mundo, espalhado por dezenas de depósitos, muitos deles, perto de centros urbanos? Como garantir que o objetivo de enfraquecer Assad sem derrubá-lo, por si só um argumento que desafia a credulidade, não vai produzir o frankenstein de um líder islâmico muito mais assustador para a região?

O mesmo Obama que, quando senador, com a autoridade de um especialista em direito constitucional, disse que um presidente americano não pode atacar outro país sem autorização do Congresso se os Estados Unidos não estiverem sob ameaça iminente, concluiu agora que pode exercer esse poder. Mas se o Congresso não autorizar um ataque pela primeira vez na história americana e, sem apoio da ONU, com escasso apoio internacional, Obama der ordem de disparar os mísseis, envolvendo o país num conflito que agora é regional, seus ex-professores de direito em Harvard vão ter farto material para avaliar as consequências.

Presidentes americanos ordenaram ataques com e sem autorização do Congresso ao longo da história. Duas das mais desastrosas aventuras militares americanas, o Vietnã, em 1964, e o Iraque, em 2003, tiveram o carimbo de aprovação de parlamentares examinando falsos argumentos do Executivo. A moralidade de livrar o mundo do uso de armas químicas banidas há quase um século não está em questão, e um conflito militar não se decide com pesquisa de opinião.

Em Washington, os que defendem um ataque à Síria para proteger a credibilidade americana no mundo, além de obscurecer o debate moral e estratégico, são negligentes com o território onde a credibilidade está verdadeiramente comprometida. Um presidente que ainda não conseguiu explicar ao público por que, depois de ter cruzado os braços durante mais de dois anos, a hora de agir é esta, tem um problema mais urgente para resolver.

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