Noites de Porto Príncipe são cenário de guerra

Sem eletricidade, milhares dormem nas ruas da capital

Leandro Colon, O Estadao de S.Paulo

27 de janeiro de 2010 | 00h00

A noite em Porto Príncipe é um cenário de guerra. Sem energia elétrica nem casa, famílias usam tijolos dos escombros do terremoto para demarcar seus espaços. Neles, colchonetes, papelão, lençóis, talheres, copos, baldes e bacias dividem os pequenos lugares com crianças, jovens e adultos desabrigados.

Cadeiras de praia também são usadas como cama. Não há banheiro, muito menos banho. Para diminuir o uso das ruas como depósito de urina e fezes, líderes comunitários pedem para que sejam usados sacos plásticos, que, segundo o governo, serão recolhidos em algum momento.

Na noite de terça-feira, o Estado percorreu as ruas das regiões de Delmas e Bel Air, devastadas pelo terremoto de duas semanas atrás. Pouca coisa sobrou das casas, igrejas e comércios. A falta de luz é disfarçada em algumas vielas com minigeradores a diesel. Mas são poucos. Foi possível notar pequenas fogueiras feitas com madeiras dos escombros e um pouco lixo. Ali, moram pessoas que se recusam a ir para praças ou campo de refugiados. Elas preferem morar na frente dos escombros de suas casas.

Na escuridão, o sono dos desabrigados é despertado com a luz dos carros de patrulhas militares que chegam para entregar comida e água. "Mange, bon bagay", avisam os militares brasileiros. "Comida, sangue bom", na tradução da língua creole.

Os haitianos - crianças, adultos e idosos - acordam, se vestem rapidamente e correm para uma fila para receber um litro de água, sardinha e salsicha enlatadas. Um homem ouve músicas haitianas em um radinho de pilha. Outro fica incomodado ao ser flagrado pela reportagem na fila de shorts e camiseta - os haitianos prezam a elegância, mesmo na tragédia.

Nessa noite, foram entregues 1,8 tonelada de comida e 1,8 mil litros de água em quatro lugares diferentes. Policiais do Haiti chegam para auxiliar as tropas. Eles pedem e também recebem comida.

Os bebês continuam dormindo durante a distribuição. Os pais aproveitam os travesseiros dos filhos para guardar os mantimentos. "O problema aqui não é violência. É falta de comida", diz Júnior Auprh, 31 anos, um dos líderes comunitários que ajudam os militares a organizar a distribuição. Auprh relata que nunca teve emprego. A maioria dos haitianos tem a mesma história.

No retorno à base militar é possível perceber o início da aglomeração de haitianos em frente à embaixada dos EUA, um dos poucos lugares iluminados da capital. Quem está ali quer deixar o Haiti de qualquer jeito.

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