Nomeação de reitora abre crise na PUC

Em assembleia, alunos decretam greve e invasão da reitoria após d. Odilo Scherer escolher Anna Maria Cintra, 3.ª colocada na eleição

O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2012 | 02h01

Cerca de 400 alunos da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo invadiram ontem à noite a reitoria e decretaram greve horas depois de o cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, grão-chanceler da universidade, ter nomeado a professora Anna Maria Marques Cintra como nova reitora. Anna Maria ficou em terceiro lugar na eleição para o cargo, em agosto.

As regras para a escolha do reitor na PUC-SP preveem eleição em que alunos, funcionários e professores votam. Uma lista tríplice segue para o cardeal, que tem a prerrogativa de escolher um dos nomes. Tradicionalmente, o primeiro colocado sempre é o escolhido.

Após o anúncio da nomeação de Anna Maria, os alunos convocaram uma assembleia no câmpus de Perdizes, zona oeste da capital, para definir o que seria feito. Por unanimidade, foi aprovada a greve dos estudantes e a ocupação da reitoria. Em seguida, os estudantes empilharam carteiras no Pátio da Cruz, no prédio da reitoria, e em corredores da instituição.

Além dos alunos, três professores e alguns funcionários participaram da assembleia. "É um absurdo, passa por cima da democracia conquistada pela PUC durante todos esses anos", disse a aluna de Economia Paula Palermo, de 19 anos, da chapa recém-eleita para o centro acadêmico.

Anna Cintra tem 73 anos e leciona há 46 na PUC. Graduada em Letras Clássicas e doutora em Letras Linguísticas, foi chefe de departamento, vice-reitora e presidente da comissão de Pós-Graduação. Hoje, integra o programa de Pós-Graduação em Língua Portuguesa da universidade.

Sua nomeação ocorreu após uma votação conturbada, em que parte das cédulas foi excluída por não ter a rubrica de mesários. Na ocasião, a chapa de Anna Maria pediu a impugnação da eleição. Uma recontagem acabou sendo aprovada, mas Anna continuou na terceira colocação, atrás do atual reitor, Dirceu de Mello, e da chapa encabeçada pelo professor de Economia Francisco Serralvo.

A assessoria de imprensa da PUC informou que o reitor Dirceu de Mello não iria se manifestar. Serralvo, o segundo colocado, disse receber a escolha de d. Odilo com "naturalidade". "Não podemos perder de vista que todos os candidatos entraram num processo sabendo das regras." Serralvo, porém, reconhece o direito de os alunos protestarem. "Por ser inédito, é legítimo que a comunidade expresse seu descontentamento."

Para o presidente da comissão eleitoral, professor Marcio Camarosano, d. Odilo deve justificar à comunidade acadêmica o porquê da nomeação de Anna Maria. "A universidade escolheu sua preferência na votação, mas sabemos que o cardeal não é obrigado a nomear o primeiro colocado. Só resta saber como a comunidade vai aceitar a decisão da Igreja", disse ele, que, como o atual reitor, é professor de Direito. "Apesar da prerrogativa, houve uma inobservância da tradição." / CARLOS LORDELO, CRISTIANE NASCIMENTO, DAVI LIRA, LUIZA VIEIRA, MARCIO DOLZAN, OCIMARA BALMANT e PAULO SALDAÑA

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