Noronha, soy Lomo por ti

Estas fotos não são erro de impressão, efeito de computador ou resultado da "euforonha", a excessiva euforia que o arquipélago provoca. Elas foram feitas com uma divertida Lomo

Thais Caramico, FERNANDO DE NORONHA,

15 de fevereiro de 2011 | 16h00

 

 

Dizem que em Fernando de Noronha o corpo do visitante sofre um tipo singular de alteração. O fôlego quase falta, os olhos parecem querer ver tudo ao mesmo tempo. Algumas pessoas acabam falando demais, outras ficam sem palavras. Sintomas clássicos da "euforonha", na sabedoria dos ilhéus. Algo sem vacina ou possibilidade de cura. E muito comum. Afinal, quem não ficaria eufórico nesse santuário?

 

Deve ser por isso que o piloto procurou, um pouco antes, ainda no alto, checar nosso bem-estar e nos preparar para o que viria a seguir. O sobrevoo circular e rasante revelou um oceano em degradê, como se fitas em muitos tons de azul e alguns de verde tivessem sido costuradas até o mar sumir no horizonte. Uma beleza única.

 

E muitíssimo inspiradora. Imediatamente acometida por um estágio severo de "eurofonha", fiquei feliz de ter comigo dois modelos de maquininhas Lomo, além da câmera digital. Queria clicar tudo, de várias formas, com o máximo de possibilidades.

 

Foram cinco dias de encantamento nesse lugar isolado no Atlântico e pontilhado por praias deslumbrantes, onde a soma de golfinhos e tartarugas ultrapassa o número de habitantes. O também chamado arquipélago do vulcão é um pedaço de 26 quilômetros quadrados de terra, formado por 21 ilhas, ilhotas e rochedos. Fernando de Noronha, que batiza o conjunto todo, é a maior e a única habitada.

 

O arquipélago surgiu de uma erupção, há mais de 12 bilhões de anos, e hoje está a 4 mil metros acima do mar, no topo de uma montanha submarina. Assim, nada se vê ao olhar para o lado, a não ser água e mais água. A capital mais próxima é Natal, no Rio Grande do Norte, a 360 quilômetros dali. Mas o conjunto de ilhas pertence a Pernambuco - do Recife, são 545 quilômetros. Voos para Noronha partem somente dessas duas cidades.

 

Sua localização, tão longe da costa, tornou possível preservar o que a natureza produziu de mais belo: baías, piscinas naturais, recifes, rochas negras e um multicolorido mundo subaquático. Ali, meio ambiente e visitantes estão em equilíbrio há 20 anos, quando o turismo começou a ser desenvolvido.

A chave para esse equilíbrio é o rígido controle sobre o vaivém no arquipélago, Parque Nacional Marinho e Área de Proteção Ambiental. Na maior parte do ano, Noronha recebe apenas 420 felizardos por dia. E 630 na altíssima estação, no verão.

 

Todos pagam uma espécie de visto de permanência, uma taxa diária de R$ 38. Isso até o nono dia. Depois disso, o valor vai subindo em proporções que, educadamente, convidam o turista a se retirar. Quer ficar um mês? Só nas taxas, serão R$ 3.154,80.

Com 3.700 habitantes, a ilha está no limite de população. Moradores fixos não são mais aceitos, ou seja, ninguém consegue simplesmente arrumar as malas e se mudar de vez para lá.

 

Uma de nossas primeiras capitanias hereditárias (sim, aquelas do livro de história) e Patrimônio Natural da Humanidade pela Unesco desde 2001, Noronha é toda de terra e pedras. Uma verdadeira academia de subidas e descidas, que ficam ainda mais pesadas com o sol ardente. O calor toma conta e você não vai encontrar muita sombra enquanto caminha para descobrir as ruínas que contam a história do arquipélago.

 

Praias lindas você vai ter o ano todo, é verdade. Mas que o período de visita seja considerado, pois ali há apenas duas estações. Na seca, de setembro a fevereiro, é um poeirão, com sol de rachar. A chuva da manhã, que dura 10 minutos, no máximo, é do caju e da manga, para que passem bem. Entre março e agosto, Noronha tem lama - leve tênis e capriche na direção do seu buggy alugado, o veículo oficial.

 

Os nativos gostam de deixar claro que, em toda a ilha, há uma única via de asfalto: a BR Transnoronha. E brincam ao receber os visitantes: "Com seus 7,5 quilômetros, é essa reta que liga Fernando a Noronha."

 

Você vai logo notar que o local tem energia e tempo próprios. Acorda cedo. Parece que respira. E fica fácil associar esse sentimento ao seu ponto mais alto: o Morro Santa Cruz do Pico. É possível ver a pedra, que tem cara de cacique, de qualquer lugar da ilha, como se ele fosse um guardião, alguém que zelasse ali de cima, com a cabeça encostada no céu. Apenas uma das muitas causas, acabei por descobrir, da tal "euforonha".

 

  

 

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA SECRETARIA DE TURISMO DE PERNAMBUCO E AMBIENTAL EXPEDIÇÕES

 

 

 

Por trás das fotos

Achou as imagens desta reportagem diferentes? As fotos foram produzidas por dois modelos de câmeras lomográficas - analógicas, sem flash e com lente de plástico -, chamadas Diana Mini e ActionSampler.

 

Outra arte

A lomografia é mais do que um jeito simples de fotografar. É uma proposta divertida, que vira brinquedo nas mãos de quem flerta com a arte. Com filmes 35mm ou 120mm, o resultado é sempre uma surpresa. Por isso mesmo, esqueça a técnica. Experimente

 

No início

A primeira lomo foi desenvolvida na União Soviética, nos anos 1980. Em 1992, jovens europeus "descobriram" o potencial das câmeras e criaram a Lomographic Society. De lá para cá, outros modelos surgiram e a lomo virou artigo hype. Há uma loja da marca no Rio

 

Os tipos

A Diana trabalha com sobreposições. Já a ActionSampler funciona em quatro tempos de abertura. Há, ainda, a Fisheye One, que garante um círculo preto na borda, e a SuperSampler, que faz oito fotos em uma só. Além da Holga, o modelo mais comum, com flash vermelho, azul, amarelo e branco

Veja também:

link Três formas para conhecer a ilha: a pé, de barco ou num 4X4

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link ‘Jamais imaginei que seria tão simples’

 

 

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