Nós aprendemos a ver?

Se você passar o dedo na bochecha de um recém-nascido, ele vai girar a cabeça e tentar abocanhá-lo. Essa reação o ajuda a mamar. Esse comportamento vem programado no cérebro. Não depende de experiência prévia ou aprendizado. Mas ninguém aprende a falar se não ouvir outros falando. A língua que falamos depende da interação do cérebro com estímulos do meio ambiente.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2012 | 03h08

Por anos, cientistas acreditavam que só características "culturais" (como fala e escrita) dependiam da interação do sistema nervoso com o ambiente. Características "biológicas", como reflexos, audição e até a visão, surgiriam ao longo do desenvolvimento de maneira pré-programada, em momentos precisos, sob controle dos genes.

Essa crença caiu por volta de 1970, quando dois cientistas, estudando primatas, demonstraram que o desenvolvimento da parte do cérebro que controla a visão (córtex visual) só se completa se os olhos enviam imagens ao cérebro.

Eles estudaram o desenvolvimento do sistema visual em animais em que um ou ambos os olhos eram tampados. Sem informação do globo ocular, a organização dos neurônios do sistema visual não ocorria direito. Até um certo momento (chamado de "fase crítica"), o sistema visual se desenvolve independentemente do funcionamento dos olhos, mas, se eles não enviam sinais na fase crítica, não há desenvolvimento normal da visão.

Essa descoberta, que rendeu o Nobel, demonstrou que o sistema visual dos mamíferos - uma característica biológica - não é determinado unicamente por fatores genéticos, mas depende de uma forma de aprendizado, obtido pela observação do mundo. Por isso é tão importante corrigir defeitos como estrabismo acentuado logo após o nascimento.

Agora cientistas húngaros demonstraram que a realidade é mais complexa. Descobriram que a fase crítica não ocorre em momento determinado, mas depende dos estímulos que o cérebro recebe. Eles estudaram o aparecimento da capacidade de integrar a imagem oriunda de cada olho. Ela surge por volta dos 4 meses de idade, durante o período crítico, e permite que o cérebro combine a informação gerada em cada olho, produzindo uma imagem tridimensional. Antes dos 4 meses, o cérebro reage de uma única maneira, independentemente de as imagens apresentadas a cada olho serem iguais ou diferentes. Após os 4 meses, o cérebro passa a reagir de modo diferentes, dependendo do caso. Nessa idade a criança começa a reconhecer as faces e expressões faciais dos pais, demonstrando que o sistema visual está maduro.

Os húngaros se perguntaram se o período crítico ocorre em um momento fixo, determinado geneticamente, ou se pode ser alterado, dependendo de quando o cérebro começa a receber sinais dos olhos. Eles determinaram o momento em que 15 crianças nascidas com 9 meses de gestação passam pelo período crítico e compararam com dados obtidos com 15 crianças prematuras. O resultado mostra que o período crítico ocorre 4 meses após o parto, independentemente do tempo de gestação. Ou seja, o momento em que passamos pelo período crítico não depende só de eventos ditados pelos genes, mas pode ser alterado se o cérebro recebe informação dos olhos mais cedo.

Essa descoberta é importante, pois demonstra que a interação com o ambiente tem um papel maior que o imaginado. O processo de visão é parte determinado geneticamente, parte determinado pelo meio ambiente. A linha que separa comportamentos derivados de processos biológicos dos derivados de processos culturais está ficando difusa. Será que nascemos com o dom da visão ou aprendemos a ver quando abrimos os olhos?

* BIÓLOGO, MAIS INFORMAÇÕES: EARLY ONSET BINOCULARITY IN PRETERM INFANTS REVEALS EXPERIENCE-DEPENDENT VISUAL DEVELOMENT IN HUMANS. PROC. NATL. ACAD. SCI. USA,  VOL. 109,  PÁG. 11.049,  2012

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