Nosso grande risco

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Rafael R. Ioris*, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2015 | 22h00

Difícil ser otimista com o atual cenário nacional. Recessão econômica, polarização política, crescente agressividade no relacionamento interpessoal (mas não somos cordiais?) e, talvez o pior, uma crescente falta de perspectiva de que saberemos resolver nossos desafios. Parecemos mesmo estar correndo risco de perder de vez o tal "trem da história", nos dizeres batidos dos anos 80; ou seja, a oportunidade de nos consolidarmos como uma nação democrática e inclusiva. Esse diagnóstico se torna ainda mais desanimador quando acoplado à percepção de que parecemos estar desperdiçando uma de nossas maiores oportunidades de concretizar tais anseios. Tínhamos até há pouco uma economia crescendo em níveis históricos dentro de um dos ambientes mais democráticos da nossa história. Essa, por sinal, nos provê perspectiva para entendermos quiçá o que está em jogo. 

Numa longa perspectiva, depois de uma experiência colonial pautada por um grande atraso material e cultural frente aos nossos hermanos hispânicos, avançamos muito nas primeiras décadas do nosso período nacional dada a estabilidade, que em grande parte faltou aos nossos vizinhos, oferecida pelo regime monárquico. Que esse se fundava na exploração brutal do trabalho escravo e tinha como projeto central uma inserção dependente do País nos esquemas da crescente economia capitalista global, não diminui o fato de que nos foi, ainda assim, possível avançar no estabelecimento das bases da nossa própria nacionalidade. Mas se avanços foram feitos, pautando a lógica das muitas décadas que se seguiram, a maior parte da nossa população se encontrava alijada dos processos de participação política, assim como dos ganhos econômicos nacionais.

A implementação do regime republicano no final do século fez infelizmente pouco para alterar as principais estruturas de poder do País, e somente ao longo de meados do século 20 veríamos, em grande parte fruto da mobilização social dos grupos excluídos, o início de um longo processo de alargamento dos eixos definidores dos destinos da nação. Crescemos de maneira recorde ao longo da implantação custosa e insuficiente de uma industrialização substitutiva, e começamos finalmente a aceitar, ainda que tardia e muito parcialmente, a inclusão de novas demandas na nossa pauta política. Vislumbrávamos, por fim, o caminho de novos e mais duradouros avanços ao começarmos a experimentar níveis crescentes de participação popular nos processos de tomada de decisão ao longo dos anos 50 e início dos anos 60. Foi quando, de fato, começávamos a crer que esse seria o meio pelo qual poderíamos, por fim, realizar nosso "destino". 

Trágica e dolorosamente, essas esperanças seriam abruptamente frustradas quando a Guerra Fria assumira um caráter doméstico em nossas paradas, e forças conservadoras locais cerraram fileiras com os interesses geopolíticos globais. O que se seguiu foram muitos anos de violência política e crescente exclusão econômica ainda que nossa estrutura produtiva se modernizasse e adentrássemos ainda mais no mercado global.

Nossa longa e gradual abertura dos anos 80 nos brindou um legado doloroso e ambíguo. Por um lado, podíamos novamente participar dos processos da democracia formal. Por outro, seguíamos como uma das nações mais injustas do planeta ainda que com uma de suas maiores economias. Somente a duras penas conseguimos avançar novamente, tanto na economia como na nossa renascente democracia, e adentramos o século 21 como um dos países considerados mais promissores do mundo. Éramos não só um dos principais mercados emergentes globais mas também o país onde mais se avançava na redução da desigualdade de renda; assim como na consolidação das estruturais formais e substantivas da democracia liberal. 

Críamos estar à beira de nos tornar, finalmente, parte do tal mundo desenvolvido que parecia nos olhar com um interesse que há muito não se via. Mais importante, achávamos estar definitivamente nos tornando um país onde valores intrínsecos da pauta democrática moderna, tais como equidade e participação (política e econômica), eram tidos como consensos nacionais. Desanimador ver que nada nos será tão simples. 

Percebemos a cada dia o crescimento de uma lógica política pautada na exclusão e desigualdade (em que adversário não partilha de legitimidade e deve ser eliminado) e o florescimento de um (pseudo)moralismo que a muitos parecia ser parte do nosso passado. Se achávamos estar, então, à frente da consolidação de um processo de inclusão nos moldes sociais-democrata clássicos, que no nosso contexto incluía também o resgate do nosso passado escravocrata, hoje somos forçados a reconhecer a força redivida do conservadorismo e individualismo primitivo em vastos setores de nossa população e mesmo, em alguns casos, o retorno e crescimento de elementos centrais de uma lógica política fascista.

Como perceber, dentro desse cenário complexo e cambiante, por onde retomar o eixo dos avanços das últimas décadas? Seja nossa direita neo-udenista, seja nossa esquerda termidoriana no poder, parecem capazes de apontar os caminhos a seguir. Em meio aos constantes escândalos de corrupção que estarmos vivendo, como poderemos restabelecer a noção de que só avançaremos como nação se aprofundarmos (ao invés de reduzirmos) a participação popular no processo político e ganhos econômicos? 

Estamos frente a uma de nossas mais importantes encruzilhadas históricas. Como responderemos aos desafios de hoje definirá como seremos vistos no futuro. Desta vez, não poderemos culpar ingerências externas e somos os responsáveis pelo que virá. Estaremos à altura de nossas responsabilidades ou correremos o risco de novamente frustrar nossas potencialidades e futuro?

* Rafael R. Ioris é brasileiro, professor de História Latino-americana na Universidade de Denver


Mais conteúdo sobre:
Estadão Noite

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.