Nota baixa e lição de casa

A experiência britânica com o 'rating negativo' pode ser instrutiva para os EUA: acatar sugestões das agências de risco nem sempre é garantia de sucesso econômico

Zachary A. Goldfarb, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2011 | 00h35

Há cerca de dois anos, antes que o presidente Obama e o Congresso fossem advertidos de que os Estados Unidos poderiam perder sua classificação máxima de crédito, seus equivalentes em Londres receberam a mesma mensagem. Os políticos britânicos reagiram à advertência da Standard & Poor"s com um profundo corte de gastos e aumento de impostos. No ano seguinte, o crescimento econômico britânico diminuiu drasticamente e as ruas se encheram de manifestantes que protestavam contra os cortes.

A experiência pode ser instrutiva para os funcionários americanos que avaliam o que fazer para sanar o crescente endividamento da nação. Na segunda-feira, a S&P mudou sua perspectiva para os EUA de "estável" para "negativa". A agência de classificação de crédito alertou que o país poderia perder seu ambicionado rating AAA se não tratasse de conter o crescente endividamento nacional.

Em maio de 2009, a S&P adotou a mesma medida para a Grã-Bretanha. No prazo de um ano, a nova coalizão liderada pelo Partido Conservador no Parlamento pôs em prática medidas drásticas visando a reduzir os gastos do governo em 25%, elevar o imposto nacional sobre as vendas de 17,5% para 20% e reduzir o déficit do orçamento anual. O tão respeitado Serviço Nacional de Saúde foi poupado dos cortes. A S&P premiou a Grã-Bretanha, informando que o país não corre mais o risco de rebaixamento do rating e sua classificação subiu para "estável".

Mas o plano de austeridade teve um custo significativo. O crescimento econômico, que era modesto em consequência da recessão global, reduziu-se drasticamente. Na realidade, nos três últimos meses de 2010, o crescimento ficou negativo e a economia britânica encolheu meio ponto porcentual.

Seguiram-se grandes manifestações de protesto contra os cortes do orçamento, que poderiam custar o emprego de centenas de milhares de trabalhadores, reduzir os benefícios da previdência e obrigar as pessoas a adiarem a aposentadoria. Mas houve também vantagens. Os mercados globais de capital mantiveram sua confiança na Grã-Bretanha - o que foi fundamental para um país que no futuro próximo precisará se endividar consideravelmente a juros baixos para financiar as operações do governo.

Enquanto as preocupações com o maciço volume da dívida britânica se tornavam o centro das atenções em 2009, os juros dos títulos de dez anos do país aumentavam rapidamente, de 3% para 4,2%. Era um sinal de que os credores do país começavam a ficar agitados com a possibilidade de a dívida da nação tornar-se insustentável. Depois que a nova coalizão, liderada pelos conservadores, aprovou o plano de austeridade, os juros caíram rapidamente abaixo de 3%. Hoje, estão em cerca de 3,5%.

Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador do Peterson Institute for International Economics, disse que foi importante para a Grã-Bretanha adotar tais medidas, mesmo com certo prejuízo político. "Na época, era preciso evitar um possível cenário desestabilizador. Se não fosse adotado o plano de austeridade, a GB não teria voltado a trilhar um sólido percurso de estabilidade", afirmou.

Não está claro se os EUA têm a mesma urgência de adotar cortes significativos para reduzir seu déficit. "Não é preciso recorrer a uma austeridade extrema neste momento para adotar um plano de longo prazo", disse Steven Hess, diretor do setor de crédito da agência Moody"s. "O importante é a trajetória no longo prazo." Mas analistas da S&P, concorrente da Moody"s, sugerem que existe uma urgência maior. O analista de crédito Nikola G. Swann afirmou que, para preservar sua classificação de crédito, os EUA precisam implementar claramente um plano de redução da dívida até 2013. Até o momento, os mercados financeiros descartaram os temores a respeito da dívida americana. Os juros dos títulos americanos permanecem baixos e até mesmo declinaram na segunda-feira, quando a S&P emitiu sua advertência.

Os economistas afirmam que há razões para acreditar que os mercados de capital continuarão fornecendo dinheiro barato aos Estados Unidos. O dólar é a moeda global dominante e os títulos do Tesouro americano são o ativo mais transacionado em todo o mundo, considerados um investimento isento de riscos para países, bancos e investidores. Por outro lado, segundo os economistas, o peso dos títulos do Tesouro na economia global provocaria um aumento dos riscos se uma crise de confiança atingisse os EUA. Enquanto o Japão conseguiu resistir a um total rebaixamento em 2002, é difícil imaginar os efeitos em cascata, caso isso acontecesse com a economia mais importante do mundo. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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