Notas de um refúgio

Contra a guerra, pianista sírio dispara seu arsenal de música, expressão final de liberdade que ninguém pode capturar

Juliana Sayuri, O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2013 | 19h08

Silêncio inquietante em São Petersburgo, enquanto os líderes mundiais se encontraram na cúpula do G-20 nessa semana. Síria era a questão que não queria calar. Mas na sexta-feira viria um prelúdio para a possível intervenção militar no território de Bashar Assad: 11 presidentes do G-20 assinaram um documento repudiando fortemente os ataques de 21 de agosto nos arredores de Damasco. "Mais de 400 crianças morreram nesse ataque. Isso não é algo que fabricamos. Não é algo que estamos usando como desculpa para uma ação militar", disse Barack Obama, quebrando o silêncio diplomático.

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O pianista Malek Jandali não quer silêncio, mas tampouco espera ver sua Síria ancestral se transformar num palco para sonoras bombas e mísseis. "Não precisamos de uma intervenção militar, mas humanitária. Não quero dizer que se levar leite para as crianças tudo ficará bem. Quero dizer que precisamos de uma estratégia clara, da comunidade internacional, para proteger os civis inocentes", diz.

Nascido em Waldbröl, Alemanha, o músico se mudou para Homs, Síria, com os pais em 1978. Aos 6 anos, já apaixonado por música, viajava todas as quintas-feiras uns 100 km de Homs para Damasco, para ter aulas de piano.

Aos 18, depois do colegial, mudou-se para os EUA para estudar na North Carolina School of the Arts.

Desde 2011, o pianista vem dedicando seu tempo e sua música para ajudar os rebeldes sírios. Fez uma série de concertos para angariar milhões para ajuda humanitária via Nações Unidas. Por suas composições, já foi perseguido pelo regime de Bashar Assad. "Mas não estou discutindo geopolítica. Não sou um político. Sou um artista. Para mim, proteger os inocentes sírios é uma questão moral", pondera.

Aos 39, Malek Jandali tem uma máxima: a música é a forma final de liberdade. "Enquanto os líderes internacionais estão fracassando sobre a questão na Síria, há outras formas de diálogo. Por exemplo, fui a Moscou para gravar uma música em homenagem à revolução síria - ao mesmo tempo em que Putin mandava armas para Assad. Também fui gravar outra composição na ópera do Cairo, onde agora os egípcios estão expulsando refugiados sírios. Isso mostra que povo é povo, solidário mesmo quando os chefões não se acertam."

Em outubro, o pianista estreia um novo concerto em Nova York: The Voice of the Free Syrian Children. Passará por Detroit, Londres, Paris, com melodias inspiradas na revolução. Entre elas, uma grande sinfonia em quatro movimentos intitulada The Syrian Symphony. De Atlanta, Malek Jandali conversou com o Aliás.

 

INFÂNCIAS ROUBADAS

"Eram palavras simples, mas poderosas: ‘liberdade’ e ‘justiça’. Foram as palavras escolhidas e grafitadas por crianças nos muros da escola, na cidade de Daraa, em março de 2011. Pediam o fim da ditadura e eleições livres na Síria. Esses garotos, de 10 a 15 anos, foram presos e torturados pelos homens de Assad. Para quem não se lembra, foi a faísca para a revolução pacífica na Síria. Ali vimos que, quando a ditadura se torna um fato, a revolução pacífica se torna um direito. Outras tantas crianças, sem ideologias políticas nem religiosas, sem interesses particulares, estão sendo massacradas agora. O povo sírio tem vários rostos, vários repertórios. São jovens, homens, mulheres, gays, héteros, ateus, cristãos, muçulmanos. Quer dizer, é povo. Por um breve momento, no início da revolução, os sírios puderam se expressar com certa liberdade. Estavam dançando, cantando e aplaudindo, para mostrar ao mundo que não tinham armas nas mãos. Tinham as mãos livres para aplaudir. Os civis cantavam alegremente nas ruas - ‘give me liberty or give me death’. A revolução pacífica nos ensinou certas lições. No fogo cruzado, muitos meninos e meninas foram atingidos por tiros. Pais tiveram que enterrar filhos ainda muito jovens - e os funerais, apesar da tristeza, se transformaram em momentos sublimes a celebrar. Foram mortes em busca de ideais, por isso dignas de celebrar. Liberdade tem essa importância para nós, sírios.

O PIANISTA

"Estudei música para fazer música síria, para mostrá-la ao mundo. Ainda mais agora. Desde o início da revolução pacífica, vi mais fortemente o soft power da música.É uma linguagem universal, uma ferramenta para defender ideias de harmonia e paz, construir pontes entre diferentes culturas e países. É a forma final de liberdade. Você pode ver a música? Pode tocá-la? Ou capturá-la? Não. Nós sentimos a música. Fiquei inspirado pelos corajosos garotos de Daraa. Compus Watani Ana (My Homeland) para eles. Ainda em 2011, fiz uma performance diante da Casa Branca, como demonstração pacífica de apoio às crianças sírias revolucionárias. E a música nem tem a palavra ‘Síria’ na letra - digo ‘oh my homeland, when will I see you free’. Assad viu que não poderia capturar minha música, e foi bater na porta da minha família, em Homs: 72 horas depois da performance, seus soldados espancaram brutalmente meus pais. Enquanto minha mãe gritava, eles diziam: ‘Isso é porque vocês não souberam criar seu filho, que está gozando de Assad. É uma lição para vocês’. Com a ajuda de diplomatas, meus pais vieram para Atlanta. Um tempo depois, meu pai, médico, quis voltar. Todo mundo tem o direito de voltar para casa, está na Declaração dos Direitos Humanos. Meu pai ficou na fronteira entre Turquia e Síria, fazendo trabalho voluntário para ajudar os feridos.

VOLTAR PARA CASA

"Nessa história, já há 7 milhões de refugiados - uns 2 milhões fora, outros dentro do território sírio. Em outubro passado, consegui cruzar a fronteira para visitar crianças em campos de refugiados na Síria. Levei instrumentos musicais e brinquedos, quase um Natal. Elas estão aprendendo sobre direitos humanos com as Nações Unidas, o que lhes dá uma educação melhor que nos tempos de Assad. Antes, aprendiam na escola os feitos ‘heroicos’ do ditador. Sei que essas crianças estão vivendo uma situação humanitária catastrófica, sem comida nem remédios. Mas estão livres. Sabem que o presidente é um criminoso, que seus homens estão estuprando as mulheres das vilas e das cidades, que estão destruindo hospitais, igrejas, mesquitas. Entre esses refugiados há artistas, intelectuais, jornalistas, além de fazendeiros e trabalhadores. Há famílias inteiras que deixaram tudo para trás. Fiquei mais de dez anos sem voltar para casa, por medo dos militares. Na década de 1990, quando ganhei uma bolsa para estudar música nos EUA, precisei esperar quase dois anos para receber o passaporte. Depois, por volta de 2009, gravei meu primeiro álbum, Echoes from Ugarit, com a orquestra filarmônica de Moscou. Queria apresentar minha música com a sinfonia síria. Quer dizer, só 14 anos depois, retornei a Homs. Levei nove meses para conseguir autorização para esse concerto: conversei com um produtor, depois com o ministro da Cultura e, por fim, fui forçado a me encontrar com o ditador. Tudo ali o leva a conversar com o chefe da máfia. A estrutura corrupta é feita assim para que eles possam dominar e espalhar o medo na sociedade.

A PAX SÍRIA

"Nossa cultura inventou o alfabeto e as notas musicais. Foram contribuições para a humanidade. Nossa cultura também está enraizada na ideia de paz. Sempre lembro um exemplo histórico: a travessia de Ramsés II, do Egito para a Síria, por volta de 1200 a.C. Vieram armas e soldados, prontos para iniciar uma guerra contra o povo sírio. Em árabe, guerra é ‘hurbb’. Em Homs, minha cidade, os sírios disseram: ‘É uma palavra muito feia. Vamos transformá-la de hurbb para hubb, que significa amor’. Isso simbolizaria o primeiro tratado de paz da humanidade. O acordo foi feito na Batalha de Kadesh - e um fragmento desse acordo está no quartel-general das Nações Unidas, exposto como o primeiro tratado de paz reconhecido por historiadores. Além disso, todo mundo já ocupou a Síria: Alexandre e seu império, os franceses, os armênios, os persas, os romanos. Mas nós sobrevivemos e protegemos nossa herança. Somos um povo de paz.

NÓS REBELDES

"Prefiro não discutir essas questões a partir de expressões como ‘guerra civil’. De um lado, há uma revolução pacífica sendo dizimada. De outro, Assad e suas tropas. Não é uma guerra, mas uma revolução histórica feita pelo povo. Após décadas de ditadura, basta, queremos liberdade. Mas os rebeldes estão armados, você diz. Vamos definir ‘rebeldes’. Tampouco gosto dessa expressão. Quem está lá arriscando a vida por liberdade? Nós, o povo sírio. Quer nos chamar de rebeldes? Chame-nos de rebeldes. Enquanto muitos se armaram, muitos não se armaram. Assad, que não é bobo, viu que não poderia continuar massacrando o povo a seu bel-prazer. Inventou um inimigo para ter a desculpa de combater o terrorismo - tanto que atribuiu as armas químicas aos rebeldes. Quando prendem alguém, seus soldados e seguidores obrigam os presos a ajoelhar, beijar o retrato do ditador e chamá-lo de deus. Na realidade, Assad não pertence ao povo sírio. Quer apenas dominá-lo. Dominar o povo, a liberdade, a arte. É um regime terrorista perigoso. Essa ditadura não matou apenas sírios, mas civis de diversas nacionalidades. Por exemplo, foram assassinados jornalistas franceses (Olivier Voisin, Remi Ochlik, Yves Debay, entre outros) e americanos, como Marie Colvin, uma das mais brilhantes repórteres de guerra, em Homs. Fui a seu funeral em Nova York. Cineastas sírios (Halla Diyab, Orwa Nyrabia, por exemplo) foram perseguidos. O documentarista Bassel Shahade foi para Homs para filmar a revolução e nunca mais voltou. O cartunista Ali Ferzat, meu amigo, foi preso. Quebraram-lhe as mãos, para que não pudesse desenhar mais. Seus cartoons provocativos, publicados no Guardian e noutros jornais internacionais, estavam incomodando... Assad, nota-se, não é muito fã da liberdade de expressão.

BASTA, ASSAD

"Prefiro, portanto, não discutir a ‘guerra’. Nós - eu, você, os políticos e os líderes internacionais, incluindo o presidente Barack Obama - temos a obrigação moral de intervir em favor dessas crianças. Não uma intervenção militar. Uma intervenção humanitária. Não estou discutindo geopolítica. Não sou um político. Sou um artista. Para mim, é uma questão moral. Onde está a Interpol? Onde estão as Nações Unidas? Por que não levaram Bashar Assad para uma corte internacional até agora? Por que permitiram que a situação fosse tão longe? Assad é um ditador atroz, com um arsenal, aviões, bombas químicas, mísseis, tanques. Não se trata de uma ‘luta justa’. Não é sequer uma ‘luta’. É um massacre. O povo sírio tem as ferramentas próprias para derrubar Assad. Não estou me referindo a armas, mas a ideias. Um grande arsenal de democracia, como Churchill disse a Roosevelt: ‘Dê-nos as ferramentas e nós terminaremos o trabalho’. Não precisamos de uma ação militar. Não queremos que a Síria se torne palco de uma nova guerra. Precisamos de uma intervenção humanitária. É ingênuo propor isso? Desde 1979, a ditadura de Hafez Assad, pai de Bashar, é considerada um Estado terrorista. Aí questiono a comunidade internacional: por que fracassamos há tanto tempo? 34 anos! Por intervenção humanitária não quero dizer para levar leite para as crianças e tudo ficará bem. Quero dizer que precisamos de uma estratégia clara, da comunidade internacional, para proteger os civis inocentes. Como nos livrarmos de Assad? Ele é um criminoso de guerra. É preciso levá-lo à Justiça para responder por seus crimes. É pedir muito?"

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