Notas iraquianas e americanas

Artigo originalmente publicado no Estadão Noite

Cristina Soreanu Pecequilo*, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2014 | 15h01

Em junho de 2014, o anúncio de que o Estado Islâmico (EI) conquistara a cidade de Mosul, no Iraque, surpreendeu o mundo. Desde 2011, quando os militares dos Estados Unidos deixaram o país como parte do cronograma de retirada de tropas no Iraque e no Afeganistão (prevista para o final de 2014) para encerrar as guerras contra o terror iniciadas por George W. Bush entre 2001 e 2003, o tema tornara-se menos presente. A transferência de responsabilidades de segurança ao governo e a ordem política tornaram-se referenciais de uma transição bem-sucedida. Acontecimentos como a Primavera Árabe (que eclodiu em 2010), a violência na Faixa de Gaza, a instabilidade no Egito, a intervenção na Líbia conduzida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a guerra civil na Síria sobrepunham-se por sua gravidade.

Porém, a conquista de Mosul e a reação dos Estados Unidos, a retomada dos bombardeios aéreos em agosto, o envio de ajuda humanitária e a venda de armamentos às populações atingidas pelo EI surgiram como prova da falsa estabilidade. O EI atinge não só as minorias cristãs e yazidi, mas xiitas e curdos que se tornaram as forças majoritárias do Iraque pós-Saddam Hussein, os interesses ocidentais e revela a fragmentação do Oriente Médio e da Ásia Central.

Atribuições de culpa pela expansão do EI se iniciaram: o primeiro-ministro iraquiano Al-Malik, que teria excluído das coalizões a minoria sunita, que favorecera a sua radicalização, a Al-Qaeda e seu poder residual, responsável pela formação do líder do movimento Ab-Bakhr al-Baghdadi e nações supostamente patrocinadoras do radicalismo islâmico como o Irã, o Kuwait e a Arábia Saudita. Outros motivadores foram apontados: os colonizadores britânicos que resenharam o mapa local, os Estados Unidos que assumiram este papel, as empresas do setor energético, a exploração do petróleo e do gás, e a disputa por estes recursos entre as potências tradicionais Estados Unidos, Rússia e a União Europeia e os emergentes China e Índia. Ou o presidente Obama, que optou pela retirada das tropas e por não intervir na Síria, reduzindo a política externa à diretriz de “não fazer coisas estúpidas”, como apontou Hillary Clinton, ex-secretária de Estado da administração (e pré-candidata à sucessão)?

Independente do recuo histórico e dos culpados, que variam conforme os interlocutores, a crise iraquiana é multidimensional e faz parte de um quadro de reorganização regional que possui dinâmica própria, mediada pela intervenção externa. A escolha norte-americana de promover a mudança de regime em atores como o Iraque, a Líbia e a Síria via conflito militar e ingerências políticas provocou seu desmonte. A tentativa de conter os conflitos em fronteiras subestimou o potencial das tensões humanitárias e de projetos como o de EI, de construção do califado islâmico transnacional. A estagnação do processo de paz, as pressões sobre o Irã e as disputas na Turquia e Egito restringiram a atuação dos pivôs regionais.

Ao optar pelos ataques aéreos, os Estados Unidos demonstram os equívocos destas estratégias e a necessidade da autorrestrição, pois favoreceram a instrumentalização do medo e preconceitos étnico-religiosos. Intervir e depois retirar-se, com base em alianças frágeis com governos teoricamente democráticos e enquadrados à esfera de influência norte-americana, não leva à sustentação dos Estados recém-criados. Desenhos artificiais foram substituídos pela lógica política do conflito pelo poder em sociedades vulneráveis. Seja pela força ou pela urna, em muitos destes Estados, radicais conquistam esta meta ou permanecem tentando, colocando em xeque a estabilidade pretendida, gerando a exclusão e a violência contra os que são diferentes.

Esta percepção significa que não existirão novas ações com tropas em solo caso a situação do Iraque ou outras se agravem em detrimento dos frágeis equilíbrios que sustentam aliados e interesses geopolíticos e econômicos norte-americanos? Não, pois a instrumentalização afeta também a potência estadunidense, marcada por cisões e que enfrentará, à sombra de guerras internas e externas, duas eleições - as de meio de mandato para o Legislativo (2014) e a presidencial (2016). E, talvez, o mundo pós-Obama torne-se ainda mais volátil e sensível à expansão de forças como o EI, seus similares ou seguidores.

* Cristina Soreanu Pecequilo é professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora de 'Os Estados Unidos e o Século XXI'

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.