Notícias sobre o fim do livro

Parece que a grande novidade da última Feira do Livro de Frankfurt não foi a literatura chinesa nem outra literatura do Oriente ou Ocidente, e sim o rumor sobre o fim do livro. Dizem que esse objeto de papel vive o seu lento crepúsculo. Ou será um crepúsculo brusco, como a claridade ou a escuridão no equador?

Milton Hatoum, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

Ninguém sabe se o livro eletrônico vai sepultar a era Gutemberg. Minha intuição é que a biblioteca de papel e a eletrônica vão conviver por muito tempo. É provável que no futuro - mas todo futuro é impreciso - o livro impresso tenha um destino semelhante ao das salas de cinema.

A venda do livro eletrônico está sendo disputada por três ou quatro empresas. É uma briga de cachorros grandes, que ladram no Japão, nos Estados Unidos e em algum país da Europa. Enquanto disputam o mercado, dezenas de milhões de crianças africanas, latino-americanas e asiáticas nunca leram, nem mesmo folhearam um livro infantil. É como se da noite para o dia milhares de plaquetas eletrônicas fossem aterrissar nos povoados, cidades e aldeias pobres e miseráveis deste planeta. A tecnologia antes da caligrafia, antes mesmo do desenho, dos rabiscos, dos jogos infantis.

Em todo caso, as vozes do apocalipse são cíclicas: aparecem e somem com seus pesadelos espaçados, como se a humanidade necessitasse de notícias catastróficas para decretar o seu próprio fim ou extermínio. As guerras, sim, podem decretar o extermínio de boa parte da humanidade, e o século passado, ou todos os séculos do vasto passado são provas cabais dessa ânsia exterminadora.

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Sobre o fim do livro, tenho duas breves histórias para contar. A primeira é um sonho, ou um pesadelo mais radical e futurista que a plaqueta eletrônica: um chip que armazenasse a biblioteca do universo, uma biblioteca cujo acervo seria renovado por um único comando externo. O chip seria implantado no ombro, na perna ou numa artéria do coração do leitor. Um chip com bilhões de palavras no coração. Há algo mais poético? Mais sublime?

Um chip implantado no cérebro seria robótico demais, além de ser uma cena comum de ficção científica, algo bem menos estranho do que uma serpente de fogo numa montanha de gelo. Com esse chip cravado no corpo, o leitor não teria necessidade de olhar para uma tela: a página escrita apareceria no ar, como se fosse uma holografia. Textos soltos no espaço, sem qualquer suporte. A mais fina e diminuta tela será anacrônica.

A outra história é coisa do passado.

Ao amanhecer de um dia de 1979, conheci um piauiense que migrara para São Paulo na década de 1960. Ele era dono de uma pequena pastelaria na antiga rodoviária, onde eu comia pastel às cinco da manhã, antes de pegar o ônibus para Taubaté.

Donato me contou passagens de sua vida em um povoado miserável, próximo a Santo Antônio dos Milagres. Aprendeu a ler com uma velha, que era uma vizinha da tapera onde ele morava. Lia bula de medicamentos, lia jornais velhíssimos que embrulhavam latas de leite enviadas pelo governo, lia as palavras impressas nessas latas.

E um dia eu li um livro, disse Donato, emocionado. Um livro que um vendedor de bugigangas deixou para mim. Lia devagar, duas, três vezes cada frase, cada parágrafo. De vez em quando, parava de ler para pensar. Li tantas vezes meu único livro que decorei os trechos mais bonitos. Minha vida não valia nada, nem uma casca de cebola. Eu era um jovem que não tinha onde cair morto, como se diz. Aí consegui um emprego em Santo Antônio. Trabalhei quatro anos no balcão de uma mercearia, economizei uns tostões e vim para São Paulo. Quando ganhei um dinheirinho, abri essa pastelaria. E um dia viajei para o Rio. Queria conhecer quem tinha publicado aquele livro, queria ver o edifício da editora, as pessoas que trabalhavam com livros. Não tive coragem de entrar, fiquei espiando na calçada, olhando a placa com o nome da editora. Aí me deu vontade de fazer uma coisa, e fiz mesmo. Abracei as paredes, beijei as paredes da editora e beijei o livro que mudou minha vida.

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